Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
Nas últimas décadas, um sopro do espírito varre a Igreja, seja do lado protestante seja do lado católico. Quando sopra o vento, nada e ninguém podem detê-lo. Ao mesmo tempo, ninguém pode-lhe permanecer neutro, indiferente. Vêem daí os prós e contras frente ao crescimento dos movimentos carismáticos ou pentecostais, tanto no catolicismo como no protestantismo.
Uns os batizam de espiritualismo intimista e privativo, estéril e ineficaz. Outros neles encontram a razão de ser para sua trajetória cristã, com a certeza de que, finalmente, puderam encontrar o caminho. Uns e outros reconhecem sua emergência e sua repercussão. Mas, enquanto para os primeiros tais movimentos tendem a evitar todo e qualquer compromisso social, para os segundos refletem uma experiência profunda de encontro com Cristo.
Onde está a verdade? Seria muita pretensão procurar separar o joio do trigo, para ficar na linguagem evangélica. Nesses embates, as linhas continuam indefinidas, os contornos não são precisos. Graças a Deus, a vida é muito mais dinâmica e imprevisível do que nossos esquemas mentais e gramaticais. O bem o e mal, o certo e o errado, tudo é muito misturado, diria Guimarães Rosa (Grande Sertão Veredas).
Apesar desse alerta, vale a pena tentar um olhar mais objetivo sobre esse sopro do espírito. De início, temos de reconhecer que estamos diante de uma realidade carregada de ambiguidades, mesmo porque pisamos um terreno sagrado. Neste, tudo se reveste de mistério, diante do qual não raro ficamos sem palavras! Diante da experiência e das expressões da fé, há limites claros para a razão humana.
Cientes do solo ambíguo em que avançamos, a primeira coisa que chama a atenção dos movimentos carismáticos é a mistura de riscos e potencialidades. Uns e outras se confundem, se mesclam e se entrelaçam. Ente os riscos, não é difícil surpreender uma leitura equivocada da realidade social e histórica. Como se esta fosse impulsionada por um determinismo secreto, onde a ação humana não tem qualquer possibilidade de mudança.
Sendo assim, e sendo essa realidade marcada pelas contradições em nível sociológico, e pelo pecado em nível teológico ou moral, o mais sensato não é tentar transformá-la, e sim fugir dela. Na impossibilidade de mudar os destinos do mundo e da humanidade, o melhor é escapar para outra dimensão. Resulta que, em não poucos casos, o pentecostalismo protestante ou católico se converte numa espécie de barquinho de salvação diante da sociedade imutável. O mundo está perdido, mergulhado no pecado, mas eu encontrei Jesus! O barquinho procura equilibrar-se no mar tempestuoso, muitas vezes ignorando as angústias de quem está sendo devorado pelas ondas gigantes da fome e da miséria, da injustiça e das desigualdades sociais, da violência e da discórdia. Mares bravios afogam pecadores e inocentes, mas os barquinhos seguem protegidos pelas bênçãos de Jesus.
Nu fundo inconsciente dessa leitura míope dos fatos históricos, esconde-se uma dicotomia que divide o mundo dos salvos, os que encontraram Jesus, e os perdidos que se recusam a tal encontro. Permanecendo na cegueira, sua condenação será inevitável. O estudo superficial da realidade conduz a uma prática marcada por ações paliativas, assistenciais, ou puramente religiosas. Não falta a sensibilidade e a caridade para com os menos favorecidos; falta o conceito de protagonismo dos pobres. O falso diagnóstico falsifica igualmente o remédio.
Passemos às potencialidades, as quais, repetimos, misturam-se inextrincavelmente aos riscos. Salta à vista, antes de tudo, o retorno da alegria à vivência cristã. É possível ser cristão, alegre e feliz! Esse aspecto reveste de vida nova a liturgia, a prática e todas as demais expressões religiosas. Revela um ingrediente muito comum na cultura latino-americana, em geral, e brasileira, em particular. Tempera o vinho novo de novas manifestações. Com isso, aprendemos que não é só a mente ou a inteligência que se comunica com Deus. Todo o corpo reza, celebra e festeja! Rompe-se com um racionalismo frio e calculista, às vezes demasiadamente politizado, que impregnava a prática cristã de cunho mais profético. Dá-se importância ao gesto, à imagem, ao canto, ao simbolismo, enfim, a uma linguagem coreograficamente mais vívida e rica. As atividades religiosas ganham em vigor e alegria. A festa entra na Igreja. Às vezes em detrimento da profecia, é bem verdade, mas não podemos deixar de reconhecer esse lado expansivo que, por outro lado, faz-se presente em grande parte das expressões religiosas negras e indígenas, berço comum de nossa cultura miscigenada.
Além disso, não dá para negar a experiência religiosa de inúmeras pessoas que insistem ter encontrado Jesus e, de fato, mudaram o rumo de suas vidas. Não poucas superaram vícios e consertaram desavenças inconciliáveis. O que há por trás disso? Independentemente do que fazem os dirigentes religiosos diante de tais testemunhos, permanece inegável uma experiência profunda, verdadeira, por vezes indecifrável para os próprios sujeitos que a vivenciaram. Impossível tanta gente se enganar por tanto tempo. Impossível estar diante de uma mentira colossal e coletiva!
Não há o que duvidar: um sopro do espírito modificou suas existências. Há manipulação, há exploração do sagrado, há mercantilização da fé. Há exageros de curas e de falar em línguas! Nada disso, porém, elimina os que os fiéis chamam de encontro com Jesus e mudança de vida.
Como todo sopro do espírito, também esse incomoda e interpela a instituição. Causa um clima de estranheza e rivalidade entre as igrejas estabelecidas e as estruturas voláteis dos movimentos autônomos ou carismáticos. Estes costumam caminhar acima ou paralelamente ao plano diocesano, o qual, por sua vez, nem sempre lhe abre as portas ou lhe dá espaço. Mas convém não esquecer que o espírito sopra onde quer (Jo, 3, 8), a irrupção de Deus na história é imprevisível e não respeita fronteiras. Nenhuma Igreja pode represar as forças do vento nem manter o monopólio da manifestação do espírito divino.
Sobram dois desafios. Por um lado, reconhecer e respeitar o sopro do espírito, em que muita gente se sente reconciliada com a própria fé e com a própria vida; por outro, saber discernir o que é espetáculo, show ou manipulação, do que é obra de Deus. E aprender com Gamaliel que não se pode mover guerra contra Deus (At 5, 34-39).
sábado, 2 de outubro de 2010
AS METÁFORAS DE JESUS
Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
As metáforas de Jesus costumam ser simples na forma e profundas no conteúdo. Algumas são expressões extremamente densas, concisas e cheias de sabedoria, inseridas no meio de um discurso mais longo. Exemplo: Pois onde estiver o cadáver aí se juntarão os abutres (Mt 24, 28) ou segue-me e deixa que os mortos enterrem seus mortos (Mt 8,22) e ainda os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos (Mt 20, 16). Costumam ser frases taxativas, peremptórias, provérbios populares, sem margem a resposta. Outras se desenvolvem de maneira mais alinhavada, em forma de parábolas, a linguagem por excelência do profeta de Nazaré. Segundo os estudiosos do tema, muitas delas representam respostas pontuais às freqüentes polêmicas do cotidiano, especialmente com os fariseus e saduceus. Respostas que, vale dizer, deixavam mudos os adversários e os expectadores.
Tais metáforas ou parábolas brotam de experiências distintas e abrangem os mais diferentes campos. Umas são marcadamente agropastoris, como a do semeador, da vinha e do vinhateiro, dos trabalhadores da última hora, da ovelha perdida ou a do bom pastor, do joio e do trigo; outras estão relacionadas ao mar, aos lagos e aos trabalhadores das águas, como a da rede lançada ao mar, a moeda encontrada no peixe.
Algumas dessas metáforas/parábolas deixam transparecer um colorido e um tempero bem expressivos da vida diária do povo do que Jesus fazia parte. É caso do sal, do fermento, da luz ou do grão de mostarda; entre estas últimas, há aquelas que são fortemente carimbadas com o selo da compaixão, como a do filho pródigo; ou as que se referem à insistência e ao ritualismo farisaico da oração, como o juiz e a viúva, de um lado, e o fariseu e o publicano, de outro; e há as que transpiram a alegria de um povo simples e festivo, como a das virgens prudentes e imprudentes ou a do rei que oferece um banquete; mas há também as que denunciam o ambiente tumultuado do comércio, tais como a do tesouro escondido no campo ou a da pérola preciosa.
De um ponto de vista pastoral e espiritual, três aspectos chamam a atenção nessas páginas do Evangelho. Evidentemente são páginas inesgotáveis em seu mistério e profundidade e muita tinta e papel já se gastaram sobre elas. Os comentários que se seguem não passam de algumas gotas de reflexão no oceano de comentários sobre as Parábolas de Jesus (Livro de Joaquim Jeremias).
Conteúdo das metáforas
O primeiro aspecto a destacar é o conteúdo de tais metáforas. Grande parte delas está vinculada ao Reino de Deus. Através de algo visível e bem conhecido na vida do dia-a-dia tesouro, sal, fermento, etc. expressam uma realidade invisível. O que Jesus tem a dizer não cabe em palavras. Ele apela para imagens, mas estas também são limitadas e se prestam a distintas interpretações. A verdade é que a atenção de Jesus está de tal forma focada na intimidade com o Pai, respira de tal maneira o oxigênio de sua casa e de sua presença, que a torrente de suas palavras converge naturalmente para a certeza de que eu e o Pai somos um. E de que o Reino permanece aberto a todos que amarem a Deus e ao próximo.
O Reino torna-se sua mensagem central. Mais ainda, trata-se de uma realidade tão viva, íntima e absorvente, que Jesus se despoja de tudo para ir ao seu encontro. Nem a decepção e o fracasso com as limitações de seus colaboradores, nem a sinistra aproximação do sofrimento e da morte na subida para Jerusalém, nem a traição e a negação, e menos ainda a cruz, conseguem desviá-lo dessa meta. Impregnado de semelhante tesouro, respirando a intimidade com Pai por todos os poros, gestos e palavras, Jesus passa a insistir que todos devem ser convidados. As portas jamais se fecham para aqueles que se manifestem abertos à irrupção dessa nova realidade. Ninguém, a não ser que o queira, fica fora do banquete do Reino.
Dessa forma, o Reino se converte em Boa Nova, em Evangelho. Não uma notícia a mais, que acumulamos na bagagem de nosso saber. Muito menos uma manchete sensacionalista para satisfazer a curiosidade natural do ser humano. Mas uma notícia que sacode e interpela a existência como um todo, que a ninguém deixa indiferente, que mexe profundamente com as entranhas e a alma de cada pessoa humana. São os pobres, entretanto, os primeiros a sensibilizarem-se com ela. Sua carência ou indigência os torna mais permeáveis às novidades e às mudanças históricas.
Sem ninguém que os defenda, mesmo no escuro e na dúvida, são capazes de se lançarem confiantes nas mãos do único Senhor da História. São os primeiros que, na figura dos pastores e juntamente com a corte dos anjos celestiais, se põem a cantar e a proclamar a chegada do Menino Jesus em Belém. A presença de Deus lhes abre perspectivas para a existência vindoura, uma vez que o futuro encontra-se cerrado pelas adversidades e fracassos de passado pobre e sem saída. Deus irrompe em sua vida a partir de um amanhã renovado. Curvados sob o peso de uma experiência de cansaço e abandono, podem levantar a cabeça em direção à nova aurora que se anuncia.
Ao contrário, quem nasce e cresce em berço de ouro não quer saber de grandes transformações. Onde está teu tesouro aí estará teu coração, dirá com razão o Mestre. Ricos de bens e auto-suficientes em seu poder e em seu saber, é nisso que põem sua inteira confiança. Quem acumula tesouros no presente, com frequência volta as costas ao transcendente que chama a se desinstalar e a retomar o caminho. De forma cristalina, sobressaem duas centralidades no projeto de Jesus sobre o Reino: enquanto este representa o centro de sua preocupação e de sua pregação, os pobres encontram-se no centro do Reino.
Linguagem de Jesus
O segundo aspecto refere-se à linguagem de Jesus. Falar de inculturação da Palavra de Deus é dizer pouco, e o tema da inculturação voltará mais adiante. Está em jogo aqui uma profunda empatia entre a alma de Jesus e a alma do povo de seu tempo. Por mais misteriosa e divina que seja a mensagem, ela passa pela maneira simples e popular de se comunicar. As metáforas e/ou parábolas constituem peças chaves nessa aproximação entre a Palavra e a vida cotidiana. Trata-se de uma linguagem concreta, viva, tangível, de fácil acesso a qualquer pessoa.
A imagem e o toque precedem os conceitos. Se, de um lado, a imagem visualizada torna a mensagem inesquecível, de outro, o toque costuma ser a comunicação de quem muito ama ou muito sofre. A dor, quando histórica, secular e prolongada, mutila a fala. O toque, por exemplo, é a forma de rezar de muitas pessoas que se aproximam dos santos, da imagem de Maria e do Cristo Morto, ou do sacrário. Quem passou pelo vale de lágrimas comunica-se com os olhos, as mãos, o próprio corpo: rugas, cabelos brancos, olhares aparentemente duros, carícias de mãos rudes e calosas. Por trás dessa casca grossa costuma morar corações de uma ternura surpreendente.
Também são fortes e inesperados os ditos populares, sabedoria acumulada e condensada em frases de efeito, contrastantes. Se o teu olho é motivo de pecado, arranca-o e lança-o para longe; se a tua mão direita é motivo de pecado, corta-a e lança-a para longe, e assim por diante. Jesus assume o linguajar rude e direto de seus contemporâneos, não para ser entendido literalmente, e sim para chegar mais perto de seu coração.
Tudo isso tem em vista as pessoas mais pobres, que em geral não tiveram acesso à preparação escolar. De fato, a palavra e a história são próprias das classes dominantes. São elas que tentam monopolizar a comunicação verbal. Os habitantes dos porões desenvolvem outras formas de comunicação, tais como o gesto, a música, a dança, a poesia, a capoeira e, é claro, a imagem, o toque e o ditado repetido de boca em boca. A arte das ruas e dos campos se contrapõe à arte das galerias e dos museus. É coreograficamente mais viva, vibrante, cheia de vida e energia.
Jesus mostra entender dessa arte. Suas palavras e gestos se dirigem diretamente aos corações marcados pelo sofrimento, mas donos de uma sabedoria oculta. Quantas vezes Ele toca e se deixa tocar! Sabe que, para quem atravessou o mistério da dor, não há salvação sem a mágica do toque. Toque que pode concretizar-se numa palavra, num olhar, num beijo, num abraço, num aperto de mão, num convite, numa visita, numa mão sobre o ombro... O toque é bálsamo incomparável para quem desceu aos infernos do sofrimento humano. Por mais adultos e crescidos que sejamos, consciente ou inconscientemente, todos temos saudades do colo da mãe e de suas mãos acalentadoras.
Inculturação da Boa Nova
Por fim, a inculturação da Boa Nova do Evangelho no contexto de seu tempo. Num processo real de inculturação há dois extremos a evitar: abdicar da própria cultura ou impô-la sobre os outros. Também existem dois caminhos curtos e fáceis a serem evitados: a pura imitação ou a ignorância do estranho e diferente. Quando se fala de inculturação, está em jogo um processo lento, longo e laborioso. Um caminho que exige silêncio e escuta, compreensão e respeito, diálogo e abertura tudo isso de forma permanente.
De fato, inculturação não é um ato localizado na vida, mas um processo que dura toda uma existência. Não é um diálogo de palavras e conceitos, mas um diálogo de corações e almas. O caminho breve a aparente é o caminho da imitação, do folclore: já sei dançar o forró, já gosto de tapioca, já participo do São João então estou inculturado! Nada disso! Esse atalho aparentemente mais curto muitas vezes bloqueia o verdadeiro processo de inculturação. O caminho longo pode até passar por essas exterioridades, mas vai muito além disso. Pode também ocorrer sem essa imitação. No agreste paraibano, conheci missionários e missionárias de sotaque estrangeiro, mas com uma profunda empatia com a alma do povo. E inversamente, conheci brasileiros nascidos na própria região, mas que insistiam em manter uma distância abissal do ser genuinamente nordestino.
Imitar é próprio de papagaios ou macacos, não de seres humanos. Os seres humanos confrontam saberes, costumes, valores e contravalores. Nessa atitude de confronto, quando profunda e sincera, ocorre um mútuo enriquecimento. Cada cultura pode aprender e ensinar, corrigir e corrigir-se. Mas é preciso estar aberto ao encontro, ao diálogo, ao recíproco aprendizado. Se voltarmos os olhos para as páginas do Evangelho, frequentemente Jesus se deixa evangelizar, isto é, muda de idéia e de comportamento, extasia-se diante da fé ou da persistência do outro, especialmente das crianças, das mulheres, dos estrangeiros. Em verdade vos digo que, em Israel, não achei ninguém que tivesse tanta fé (Mt 8,10); ou Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelastes aos pequeninos (Mt 11, 25). E ainda o episódio da mulher siro-fenícia: É verdade, Senhor, mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas das crianças (Mc 7, 28).
Talvez o caso mais típico seja o encontro de Jesus e da samaritana na beira do poço, no capítulo quarto do Evangelho de João. João é o evangelista dos símbolos: costura a sua narração em torno de duas pessoas, duas sedes e duas águas. Quem no início tem sede, no decorrer da conversa oferece água; e quem tem as condições de tirar água do poço, acaba revelando sua sede mais profunda. Ou seja, ninguém é só água e ninguém é só sede. Todos nós somos constituídos de uma mistura de sede e água. É o encontro da água e da sede que acaba tornando possível o processo de evangelização. O problema é ter coragem de revelar a própria sede. Jesus o faz por duas vezes, diante da mulher e no alto da cruz.
Quem sabe reside aqui o maior mal da Igreja atualmente! Ao invés de revelar a própria sede diante dos pobres e excluídos, segue muitas vezes com a pretensão de só ter água para oferecer. Daí a noção errônea de levar o Evangelho ao que não o conhecem. Evangelho não se leva, se vive e se testemunha! A água que queremos levar, tal como as sementes do Reino, já se encontram no coração de cada pessoa e no coração de cada cultura, segundo a própria Doutrina Social da Igreja. Essa pretensão gera muitos discursos, documentos, encíclicas, sermões, cartas, por um lado, e poucos gestos de humildade e de verdadeira comunicação, por outro.
Nesse episódio, quem é o evangelizador e quem é o evangelizado? Sou tentado a dizer que nem Jesus nem a mulher. O poço é que evangeliza! Ou seja, é a coragem de abrir poços, encontros, que nos abre ao processo verdadeiro e inculturado da evangelização. As páginas do Evangelho revelam isso: a prática evangelizadora de Jesus é a de abrir poços, encontros, com as pessoas mais inesperadas. Passa por cima de todos os preconceitos e de toda discriminação, e vai ao encontro das pessoas. Abre-lhes o coração e provoca abertura da parte delas. Seu olhar misericordioso vê não tanto o pecado acumulado ao longo da história de cada um, mas o quanto a pessoa foi capaz de amar: Seus numerosos pecados são perdoados, porque ela demonstrou muito amor (Lc 7, 47). O mesmo se repete com a mulher adúltera: Ninguém te condenou?... Nem eu te condeno. Vai em paz e de agora em diante não tornes a pecar (Jo, 8, 10-11). Jesus repudia o pecado, mas, pelo dom do perdão, abre novas possibilidades ao pecador.
E está aberto assim o caminho para a evangelização. Esta tem sempre mão dupla. Parafraseando Paulo Freire (Educação como prática da liberdade), podemos dizer que ninguém evangeliza ninguém e ninguém se evangeliza sozinho. As pessoas se evangelizam mutuamente, na medida em que se abrem ao processo de conhecimento recíproco e de encontro. Essa abertura é tanto mais válida e necessária quanto mais o pluralismo cultural e religioso tomam conta de todo o planeta.
Nesta perspectiva, como lembra o Documento de Aparecida, os migrantes passam a ter um papel importante, como discípulos missionários frente ao desafio da evangelização. Diz Gadamer (Verdade e Método) que o outro tem algo a dizer não apenas sobre si, mas sobre mim mesmo. E Habermas (A Inclusão do Outro) insiste sobre o desafio atual de construir sociedades democráticas com base em povos heterogêneos, seja do ponto de vista histórico e territorial, seja do ponto de vista linguístico e cultural. Lévinas e Touraine (respectivamente Totalidade e Infinito e Poderemos viver juntos?), por sua vez, sublinham que o próprio encontro comigo mesmo passa, necessariamente, pela relação com o outro e com Deus, numa circularidade dinâmica e dialética.
Vale concluir com a frase evangélica de que Jesus falava como quem tem autoridade. De onde lhe vinha semelhante autoridade? Certamente não dos diplomas, dos títulos ou de uma posição de hierarquia. Vinha da sintonia entre a intimidade com o pai, por uma parte e, por outra, amor, da misericórdia e da compaixão para com os pobres, indefesos, doentes, fracos, débeis, e assim por diante. Sendo a ponte entre a montanha e a rua, seu coração torna-se a casa dos sem teto, sem rumo e sem pátria.
As metáforas de Jesus costumam ser simples na forma e profundas no conteúdo. Algumas são expressões extremamente densas, concisas e cheias de sabedoria, inseridas no meio de um discurso mais longo. Exemplo: Pois onde estiver o cadáver aí se juntarão os abutres (Mt 24, 28) ou segue-me e deixa que os mortos enterrem seus mortos (Mt 8,22) e ainda os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos (Mt 20, 16). Costumam ser frases taxativas, peremptórias, provérbios populares, sem margem a resposta. Outras se desenvolvem de maneira mais alinhavada, em forma de parábolas, a linguagem por excelência do profeta de Nazaré. Segundo os estudiosos do tema, muitas delas representam respostas pontuais às freqüentes polêmicas do cotidiano, especialmente com os fariseus e saduceus. Respostas que, vale dizer, deixavam mudos os adversários e os expectadores.
Tais metáforas ou parábolas brotam de experiências distintas e abrangem os mais diferentes campos. Umas são marcadamente agropastoris, como a do semeador, da vinha e do vinhateiro, dos trabalhadores da última hora, da ovelha perdida ou a do bom pastor, do joio e do trigo; outras estão relacionadas ao mar, aos lagos e aos trabalhadores das águas, como a da rede lançada ao mar, a moeda encontrada no peixe.
Algumas dessas metáforas/parábolas deixam transparecer um colorido e um tempero bem expressivos da vida diária do povo do que Jesus fazia parte. É caso do sal, do fermento, da luz ou do grão de mostarda; entre estas últimas, há aquelas que são fortemente carimbadas com o selo da compaixão, como a do filho pródigo; ou as que se referem à insistência e ao ritualismo farisaico da oração, como o juiz e a viúva, de um lado, e o fariseu e o publicano, de outro; e há as que transpiram a alegria de um povo simples e festivo, como a das virgens prudentes e imprudentes ou a do rei que oferece um banquete; mas há também as que denunciam o ambiente tumultuado do comércio, tais como a do tesouro escondido no campo ou a da pérola preciosa.
De um ponto de vista pastoral e espiritual, três aspectos chamam a atenção nessas páginas do Evangelho. Evidentemente são páginas inesgotáveis em seu mistério e profundidade e muita tinta e papel já se gastaram sobre elas. Os comentários que se seguem não passam de algumas gotas de reflexão no oceano de comentários sobre as Parábolas de Jesus (Livro de Joaquim Jeremias).
Conteúdo das metáforas
O primeiro aspecto a destacar é o conteúdo de tais metáforas. Grande parte delas está vinculada ao Reino de Deus. Através de algo visível e bem conhecido na vida do dia-a-dia tesouro, sal, fermento, etc. expressam uma realidade invisível. O que Jesus tem a dizer não cabe em palavras. Ele apela para imagens, mas estas também são limitadas e se prestam a distintas interpretações. A verdade é que a atenção de Jesus está de tal forma focada na intimidade com o Pai, respira de tal maneira o oxigênio de sua casa e de sua presença, que a torrente de suas palavras converge naturalmente para a certeza de que eu e o Pai somos um. E de que o Reino permanece aberto a todos que amarem a Deus e ao próximo.
O Reino torna-se sua mensagem central. Mais ainda, trata-se de uma realidade tão viva, íntima e absorvente, que Jesus se despoja de tudo para ir ao seu encontro. Nem a decepção e o fracasso com as limitações de seus colaboradores, nem a sinistra aproximação do sofrimento e da morte na subida para Jerusalém, nem a traição e a negação, e menos ainda a cruz, conseguem desviá-lo dessa meta. Impregnado de semelhante tesouro, respirando a intimidade com Pai por todos os poros, gestos e palavras, Jesus passa a insistir que todos devem ser convidados. As portas jamais se fecham para aqueles que se manifestem abertos à irrupção dessa nova realidade. Ninguém, a não ser que o queira, fica fora do banquete do Reino.
Dessa forma, o Reino se converte em Boa Nova, em Evangelho. Não uma notícia a mais, que acumulamos na bagagem de nosso saber. Muito menos uma manchete sensacionalista para satisfazer a curiosidade natural do ser humano. Mas uma notícia que sacode e interpela a existência como um todo, que a ninguém deixa indiferente, que mexe profundamente com as entranhas e a alma de cada pessoa humana. São os pobres, entretanto, os primeiros a sensibilizarem-se com ela. Sua carência ou indigência os torna mais permeáveis às novidades e às mudanças históricas.
Sem ninguém que os defenda, mesmo no escuro e na dúvida, são capazes de se lançarem confiantes nas mãos do único Senhor da História. São os primeiros que, na figura dos pastores e juntamente com a corte dos anjos celestiais, se põem a cantar e a proclamar a chegada do Menino Jesus em Belém. A presença de Deus lhes abre perspectivas para a existência vindoura, uma vez que o futuro encontra-se cerrado pelas adversidades e fracassos de passado pobre e sem saída. Deus irrompe em sua vida a partir de um amanhã renovado. Curvados sob o peso de uma experiência de cansaço e abandono, podem levantar a cabeça em direção à nova aurora que se anuncia.
Ao contrário, quem nasce e cresce em berço de ouro não quer saber de grandes transformações. Onde está teu tesouro aí estará teu coração, dirá com razão o Mestre. Ricos de bens e auto-suficientes em seu poder e em seu saber, é nisso que põem sua inteira confiança. Quem acumula tesouros no presente, com frequência volta as costas ao transcendente que chama a se desinstalar e a retomar o caminho. De forma cristalina, sobressaem duas centralidades no projeto de Jesus sobre o Reino: enquanto este representa o centro de sua preocupação e de sua pregação, os pobres encontram-se no centro do Reino.
Linguagem de Jesus
O segundo aspecto refere-se à linguagem de Jesus. Falar de inculturação da Palavra de Deus é dizer pouco, e o tema da inculturação voltará mais adiante. Está em jogo aqui uma profunda empatia entre a alma de Jesus e a alma do povo de seu tempo. Por mais misteriosa e divina que seja a mensagem, ela passa pela maneira simples e popular de se comunicar. As metáforas e/ou parábolas constituem peças chaves nessa aproximação entre a Palavra e a vida cotidiana. Trata-se de uma linguagem concreta, viva, tangível, de fácil acesso a qualquer pessoa.
A imagem e o toque precedem os conceitos. Se, de um lado, a imagem visualizada torna a mensagem inesquecível, de outro, o toque costuma ser a comunicação de quem muito ama ou muito sofre. A dor, quando histórica, secular e prolongada, mutila a fala. O toque, por exemplo, é a forma de rezar de muitas pessoas que se aproximam dos santos, da imagem de Maria e do Cristo Morto, ou do sacrário. Quem passou pelo vale de lágrimas comunica-se com os olhos, as mãos, o próprio corpo: rugas, cabelos brancos, olhares aparentemente duros, carícias de mãos rudes e calosas. Por trás dessa casca grossa costuma morar corações de uma ternura surpreendente.
Também são fortes e inesperados os ditos populares, sabedoria acumulada e condensada em frases de efeito, contrastantes. Se o teu olho é motivo de pecado, arranca-o e lança-o para longe; se a tua mão direita é motivo de pecado, corta-a e lança-a para longe, e assim por diante. Jesus assume o linguajar rude e direto de seus contemporâneos, não para ser entendido literalmente, e sim para chegar mais perto de seu coração.
Tudo isso tem em vista as pessoas mais pobres, que em geral não tiveram acesso à preparação escolar. De fato, a palavra e a história são próprias das classes dominantes. São elas que tentam monopolizar a comunicação verbal. Os habitantes dos porões desenvolvem outras formas de comunicação, tais como o gesto, a música, a dança, a poesia, a capoeira e, é claro, a imagem, o toque e o ditado repetido de boca em boca. A arte das ruas e dos campos se contrapõe à arte das galerias e dos museus. É coreograficamente mais viva, vibrante, cheia de vida e energia.
Jesus mostra entender dessa arte. Suas palavras e gestos se dirigem diretamente aos corações marcados pelo sofrimento, mas donos de uma sabedoria oculta. Quantas vezes Ele toca e se deixa tocar! Sabe que, para quem atravessou o mistério da dor, não há salvação sem a mágica do toque. Toque que pode concretizar-se numa palavra, num olhar, num beijo, num abraço, num aperto de mão, num convite, numa visita, numa mão sobre o ombro... O toque é bálsamo incomparável para quem desceu aos infernos do sofrimento humano. Por mais adultos e crescidos que sejamos, consciente ou inconscientemente, todos temos saudades do colo da mãe e de suas mãos acalentadoras.
Inculturação da Boa Nova
Por fim, a inculturação da Boa Nova do Evangelho no contexto de seu tempo. Num processo real de inculturação há dois extremos a evitar: abdicar da própria cultura ou impô-la sobre os outros. Também existem dois caminhos curtos e fáceis a serem evitados: a pura imitação ou a ignorância do estranho e diferente. Quando se fala de inculturação, está em jogo um processo lento, longo e laborioso. Um caminho que exige silêncio e escuta, compreensão e respeito, diálogo e abertura tudo isso de forma permanente.
De fato, inculturação não é um ato localizado na vida, mas um processo que dura toda uma existência. Não é um diálogo de palavras e conceitos, mas um diálogo de corações e almas. O caminho breve a aparente é o caminho da imitação, do folclore: já sei dançar o forró, já gosto de tapioca, já participo do São João então estou inculturado! Nada disso! Esse atalho aparentemente mais curto muitas vezes bloqueia o verdadeiro processo de inculturação. O caminho longo pode até passar por essas exterioridades, mas vai muito além disso. Pode também ocorrer sem essa imitação. No agreste paraibano, conheci missionários e missionárias de sotaque estrangeiro, mas com uma profunda empatia com a alma do povo. E inversamente, conheci brasileiros nascidos na própria região, mas que insistiam em manter uma distância abissal do ser genuinamente nordestino.
Imitar é próprio de papagaios ou macacos, não de seres humanos. Os seres humanos confrontam saberes, costumes, valores e contravalores. Nessa atitude de confronto, quando profunda e sincera, ocorre um mútuo enriquecimento. Cada cultura pode aprender e ensinar, corrigir e corrigir-se. Mas é preciso estar aberto ao encontro, ao diálogo, ao recíproco aprendizado. Se voltarmos os olhos para as páginas do Evangelho, frequentemente Jesus se deixa evangelizar, isto é, muda de idéia e de comportamento, extasia-se diante da fé ou da persistência do outro, especialmente das crianças, das mulheres, dos estrangeiros. Em verdade vos digo que, em Israel, não achei ninguém que tivesse tanta fé (Mt 8,10); ou Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelastes aos pequeninos (Mt 11, 25). E ainda o episódio da mulher siro-fenícia: É verdade, Senhor, mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas das crianças (Mc 7, 28).
Talvez o caso mais típico seja o encontro de Jesus e da samaritana na beira do poço, no capítulo quarto do Evangelho de João. João é o evangelista dos símbolos: costura a sua narração em torno de duas pessoas, duas sedes e duas águas. Quem no início tem sede, no decorrer da conversa oferece água; e quem tem as condições de tirar água do poço, acaba revelando sua sede mais profunda. Ou seja, ninguém é só água e ninguém é só sede. Todos nós somos constituídos de uma mistura de sede e água. É o encontro da água e da sede que acaba tornando possível o processo de evangelização. O problema é ter coragem de revelar a própria sede. Jesus o faz por duas vezes, diante da mulher e no alto da cruz.
Quem sabe reside aqui o maior mal da Igreja atualmente! Ao invés de revelar a própria sede diante dos pobres e excluídos, segue muitas vezes com a pretensão de só ter água para oferecer. Daí a noção errônea de levar o Evangelho ao que não o conhecem. Evangelho não se leva, se vive e se testemunha! A água que queremos levar, tal como as sementes do Reino, já se encontram no coração de cada pessoa e no coração de cada cultura, segundo a própria Doutrina Social da Igreja. Essa pretensão gera muitos discursos, documentos, encíclicas, sermões, cartas, por um lado, e poucos gestos de humildade e de verdadeira comunicação, por outro.
Nesse episódio, quem é o evangelizador e quem é o evangelizado? Sou tentado a dizer que nem Jesus nem a mulher. O poço é que evangeliza! Ou seja, é a coragem de abrir poços, encontros, que nos abre ao processo verdadeiro e inculturado da evangelização. As páginas do Evangelho revelam isso: a prática evangelizadora de Jesus é a de abrir poços, encontros, com as pessoas mais inesperadas. Passa por cima de todos os preconceitos e de toda discriminação, e vai ao encontro das pessoas. Abre-lhes o coração e provoca abertura da parte delas. Seu olhar misericordioso vê não tanto o pecado acumulado ao longo da história de cada um, mas o quanto a pessoa foi capaz de amar: Seus numerosos pecados são perdoados, porque ela demonstrou muito amor (Lc 7, 47). O mesmo se repete com a mulher adúltera: Ninguém te condenou?... Nem eu te condeno. Vai em paz e de agora em diante não tornes a pecar (Jo, 8, 10-11). Jesus repudia o pecado, mas, pelo dom do perdão, abre novas possibilidades ao pecador.
E está aberto assim o caminho para a evangelização. Esta tem sempre mão dupla. Parafraseando Paulo Freire (Educação como prática da liberdade), podemos dizer que ninguém evangeliza ninguém e ninguém se evangeliza sozinho. As pessoas se evangelizam mutuamente, na medida em que se abrem ao processo de conhecimento recíproco e de encontro. Essa abertura é tanto mais válida e necessária quanto mais o pluralismo cultural e religioso tomam conta de todo o planeta.
Nesta perspectiva, como lembra o Documento de Aparecida, os migrantes passam a ter um papel importante, como discípulos missionários frente ao desafio da evangelização. Diz Gadamer (Verdade e Método) que o outro tem algo a dizer não apenas sobre si, mas sobre mim mesmo. E Habermas (A Inclusão do Outro) insiste sobre o desafio atual de construir sociedades democráticas com base em povos heterogêneos, seja do ponto de vista histórico e territorial, seja do ponto de vista linguístico e cultural. Lévinas e Touraine (respectivamente Totalidade e Infinito e Poderemos viver juntos?), por sua vez, sublinham que o próprio encontro comigo mesmo passa, necessariamente, pela relação com o outro e com Deus, numa circularidade dinâmica e dialética.
Vale concluir com a frase evangélica de que Jesus falava como quem tem autoridade. De onde lhe vinha semelhante autoridade? Certamente não dos diplomas, dos títulos ou de uma posição de hierarquia. Vinha da sintonia entre a intimidade com o pai, por uma parte e, por outra, amor, da misericórdia e da compaixão para com os pobres, indefesos, doentes, fracos, débeis, e assim por diante. Sendo a ponte entre a montanha e a rua, seu coração torna-se a casa dos sem teto, sem rumo e sem pátria.
O MACHISMO EM PAUTA
Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
São bem conhecidas as histórias de Mércia Nakashima e Elisa Samúdio. Com amplo espaço nos telejornais e na imprensa falada e escrita, ambas exibem, e ao mesmo tempo escondem, o machismo dissimulado da sociedade brasileira. É bem verdade que se trata de episódios extremos de violência contra a mulher, mas não deixam de apresentar um retrato do que ocorre à sombra da inviolabilidade do lar e da vida amorosa ou conjugal. “Em briga de marido e mulher não se põe a colher”, diz um ditado popular nada apropriado para a consciência crescente da igualdade entre os sexos.
Somados à tragédia de Eloá e Lindenberg, vinculada pela mídia no final de 2008, o destino de Mércia e Elisa são exemplares de uma situação nada exemplar. Revelam a fragilidade e vulnerabilidade da namorada, noiva e esposa frente ao companheiro. Três casos, entre tantos outros, que mostram a mulher refém dos próprios sentimentos ou, pior ainda, dos sentimentos alheios. Fica claro que a situação de namoro, noivado ou casamento, ou até mesmo uma paquera eventual, põe a nu um relacionamento desigual. Enquanto o homem, a qualquer momento pode romper a relação, deixar a companheira e “partir para outra”, a mulher tem de pensar duas vezes antes de fazê-lo. Corre o risco de se tornar vítima do rancor, do ciúme ou da vingança que, em casos extremos, significam a morte. Aliás, como evidenciam inúmeras obras de literatura, amor e ódio moram no mesmo coração e na mesma casa.
Mas há outro aspecto que merece reflexão. A veiculação de semelhantes tragédias pelos meios de comunicação tem dupla face. Num primeiro momento, tende a transformar o caso em questão num grande espetáculo, uma espécie de show midiático. Mais do que uma informação sóbria e séria sobre os acontecimentos, o que se vê é um apelo ao emocionalismo do leitor ou telespectador. A forma sensacionalista de apresentar o desenrolar dos fatos, por um lado, e o processo de investigação policial, por outro, repetida com detalhes macabros e à exaustão, dirige-se mais aos sentimentos do que à razão, mais ao coração do que à cabeça.
A notícia já vem revestida de um juízo de valor apelativo e sedutor, impossibilitando uma visão crítica por parte do cidadão. Prevalece a divulgação imediata da manchete, não a análise de suas causas e conseqüências, e menos ainda a contextualização histórica e social da mesma. Impera a idéia do “furo de reportagem”, muitas vezes sem confirmação prévia e adequada das condições em que tudo aconteceu. Em semelhante ambiente, não poucos veículos de comunicação adquirem um matiz fortemente panfletário. Isso sem falar do exibicionismo desnecessário e vexatório, que costuma agredir e desnudar a dignidade tanto das vítimas quanto dos suspeitos.
Num segundo momento, a espetacularização de tragédias desse gênero tende a encobrir um cotidiano de agressividade menos sensacionalista, mas não menos violento. Na medida em que se explora situações extremas, recheadas de imagens e detalhes escabrosos, a tendência é deixar na sombra as relações conflituosas do dia-a-dia. Relações que se prolongam por anos e até décadas no interior da vida conjugal e familiar. São centenas, milhares, milhões de vítimas e de agressores silenciosos, protegidos pela privacidade da família. Vítimas constituídas especialmente de mulheres e crianças, quase sempre obrigadas a esconder das pessoas mais íntimas (e das autoridades policiais) seus hematomas e cicatrizes, para não ter a situação ainda mais agravada.
Além de ocultar a violência cotidiana, a espetacularização midiática de alguns casos pode legitimar um machismo que tem raízes profundas na sociedade patriarcal brasileira, para não falar de outros países. “Que coisa bárbara, esse cara é um monstro, aquilo que é violência!” – tende a dizer o espectador frente ao destino trágico de Eloá, Mércia, Elisa, Isabela Nardoni, entre outras. Cego pelos holofotes e câmaras da mídia espetacular, torna-se incapaz de interpretar como violência o sofrimento silencioso e silenciado, às vezes por anos a fio, da própria esposa, irmã, filha, sogra, avó, da vizinha... Surdo pela estridência sensacionalista com que a notícia é veiculada, torna-se incapaz de ouvir o gemido, o choro, ou até mesmo o grito que vem do interior de sua própria casa... Mudo frente à telinha, por onde seguem desfilando imagens e comentários chocantes, tornar-se incapaz de avaliar o peso de uma jornada dupla ou tripla sobre os ombros da companheira que se encontra a seu lado.
O espetáculo exibido no cenário de um palco profusamente iluminado esconde e silencia o que ocorre nos bastidores e nos porões da sociedade. Sabemos o nome e sobrenome dessas mártires assassinadas de forma brutal, em muitos casos com requintes de crueldade, mas ignoramos a existência daquelas que sofrem um martírio diário e prolongado. Martírio destilado gota a gota na “paz do lar”! Essas permanecerão para sempre no anonimato.
São bem conhecidas as histórias de Mércia Nakashima e Elisa Samúdio. Com amplo espaço nos telejornais e na imprensa falada e escrita, ambas exibem, e ao mesmo tempo escondem, o machismo dissimulado da sociedade brasileira. É bem verdade que se trata de episódios extremos de violência contra a mulher, mas não deixam de apresentar um retrato do que ocorre à sombra da inviolabilidade do lar e da vida amorosa ou conjugal. “Em briga de marido e mulher não se põe a colher”, diz um ditado popular nada apropriado para a consciência crescente da igualdade entre os sexos.
Somados à tragédia de Eloá e Lindenberg, vinculada pela mídia no final de 2008, o destino de Mércia e Elisa são exemplares de uma situação nada exemplar. Revelam a fragilidade e vulnerabilidade da namorada, noiva e esposa frente ao companheiro. Três casos, entre tantos outros, que mostram a mulher refém dos próprios sentimentos ou, pior ainda, dos sentimentos alheios. Fica claro que a situação de namoro, noivado ou casamento, ou até mesmo uma paquera eventual, põe a nu um relacionamento desigual. Enquanto o homem, a qualquer momento pode romper a relação, deixar a companheira e “partir para outra”, a mulher tem de pensar duas vezes antes de fazê-lo. Corre o risco de se tornar vítima do rancor, do ciúme ou da vingança que, em casos extremos, significam a morte. Aliás, como evidenciam inúmeras obras de literatura, amor e ódio moram no mesmo coração e na mesma casa.
Mas há outro aspecto que merece reflexão. A veiculação de semelhantes tragédias pelos meios de comunicação tem dupla face. Num primeiro momento, tende a transformar o caso em questão num grande espetáculo, uma espécie de show midiático. Mais do que uma informação sóbria e séria sobre os acontecimentos, o que se vê é um apelo ao emocionalismo do leitor ou telespectador. A forma sensacionalista de apresentar o desenrolar dos fatos, por um lado, e o processo de investigação policial, por outro, repetida com detalhes macabros e à exaustão, dirige-se mais aos sentimentos do que à razão, mais ao coração do que à cabeça.
A notícia já vem revestida de um juízo de valor apelativo e sedutor, impossibilitando uma visão crítica por parte do cidadão. Prevalece a divulgação imediata da manchete, não a análise de suas causas e conseqüências, e menos ainda a contextualização histórica e social da mesma. Impera a idéia do “furo de reportagem”, muitas vezes sem confirmação prévia e adequada das condições em que tudo aconteceu. Em semelhante ambiente, não poucos veículos de comunicação adquirem um matiz fortemente panfletário. Isso sem falar do exibicionismo desnecessário e vexatório, que costuma agredir e desnudar a dignidade tanto das vítimas quanto dos suspeitos.
Num segundo momento, a espetacularização de tragédias desse gênero tende a encobrir um cotidiano de agressividade menos sensacionalista, mas não menos violento. Na medida em que se explora situações extremas, recheadas de imagens e detalhes escabrosos, a tendência é deixar na sombra as relações conflituosas do dia-a-dia. Relações que se prolongam por anos e até décadas no interior da vida conjugal e familiar. São centenas, milhares, milhões de vítimas e de agressores silenciosos, protegidos pela privacidade da família. Vítimas constituídas especialmente de mulheres e crianças, quase sempre obrigadas a esconder das pessoas mais íntimas (e das autoridades policiais) seus hematomas e cicatrizes, para não ter a situação ainda mais agravada.
Além de ocultar a violência cotidiana, a espetacularização midiática de alguns casos pode legitimar um machismo que tem raízes profundas na sociedade patriarcal brasileira, para não falar de outros países. “Que coisa bárbara, esse cara é um monstro, aquilo que é violência!” – tende a dizer o espectador frente ao destino trágico de Eloá, Mércia, Elisa, Isabela Nardoni, entre outras. Cego pelos holofotes e câmaras da mídia espetacular, torna-se incapaz de interpretar como violência o sofrimento silencioso e silenciado, às vezes por anos a fio, da própria esposa, irmã, filha, sogra, avó, da vizinha... Surdo pela estridência sensacionalista com que a notícia é veiculada, torna-se incapaz de ouvir o gemido, o choro, ou até mesmo o grito que vem do interior de sua própria casa... Mudo frente à telinha, por onde seguem desfilando imagens e comentários chocantes, tornar-se incapaz de avaliar o peso de uma jornada dupla ou tripla sobre os ombros da companheira que se encontra a seu lado.
O espetáculo exibido no cenário de um palco profusamente iluminado esconde e silencia o que ocorre nos bastidores e nos porões da sociedade. Sabemos o nome e sobrenome dessas mártires assassinadas de forma brutal, em muitos casos com requintes de crueldade, mas ignoramos a existência daquelas que sofrem um martírio diário e prolongado. Martírio destilado gota a gota na “paz do lar”! Essas permanecerão para sempre no anonimato.
MIGRAÇÕES EM PAUTA
Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
No Brasil e no mundo, crescem os cursos, seminários, pesquisas e análises sobre o fenômeno migratório. Semelhante interesse pelas migrações passa, simultaneamente, pelas atividades dos movimentos e pastorais sociais, pelas salas de aula de faculdades e universidades, pelos laboratórios e bibliotecas dos institutos de pesquisa, pelos debates das conferências episcopais, pelos corredores e bastidores da política nacional e internacional, pelas preocupações das autoridades responsáveis pela aduana, etc. Inegavelmente, o tema da mobilidade humana, em todas as suas modalidades, causas, consequências e implicações, vem ganhando relevância a olhos vistos.
Reflexo disso são as teses de mestrado e doutorado, os estudos de caso e os eventos que se multiplicam para melhor compreender essa nova avalanche de deslocamentos humanos de massa. Tais deslocamentos costumam funcionar como fluxo e refluxo de tormentas nem sempre visíveis. Ondas aparentes e superficiais de correntes subterrâneas no campo da política e da economia. Conceitos como flexibilização, terceirização, globalização, nova geopolítica mundial, entre outros, expressam mudanças profundas em termos estruturais e macro-históricos. Seus reflexos transparecem nessas multidões irrequietas que, consciente ou inconscientemente, correm atrás de novas oportunidades de vida e trabalho.
Nesta perspectiva, as migrações adquirem a imagem de um tsuname, cujo epicentro do terremoto encontra-se oculto e distante. Ou a imagem de ponta de um iciberg cuja força e volume permanecem desconhecidos. No rearranjo da economia e das relações de poder em âmbito internacional bipolaridade das potências, multipolaridade, força dos países emergentes, nova polaridade entre Estados Unidos e China, relação sul-norte e leste-oeste, crise do sistema financeiro estão as razões invisíveis que movem as águas na superfície.
Neste cenário mundial, em que as nações se reacomodam como verdadeiras placas tectônicas da economia política, os emigrantes e imigrantes figuram simultaneamente como vítimas e protagonistas. Vítimas das assimetrias e desequilíbrios sociais que se produzem, reproduzem ou se aprofundam. Especialmente do sul para o norte e do oriente para o ocidente, massas anônimas buscam também reacomodar possibilidades mais promissoras de futuro. Protagonistas, na medida em que, pondo-se em marcha em grandes quantidades e em todas as direções, fazem marchar a própria história dos povos, nações e culturas. Se, por um lado, questionam estruturas injustas pelo simples fato de migrar, denunciando os países pátrios que lhes negam as mínimas condições de cidadãos, por outro, rompem com o conceito de fronteira, anunciando uma espécie de cidadania universal.
Difícil atualmente o país que não esteja envolvido com tais deslocamentos humanos. Alguns países aparecem como lugares predominantes de saída, outros, como pontos de chegada; outros, ainda, como áreas privilegiadas de trânsito ou travessia. Entre os primeiros, podemos colocar os povos da América Latina, África, Ásia e da ex-União Soviética; entre os segundos, os Estados Unidos, Europa, Japão e Austrália; entre os últimos, vale lembrar o México, a Guatemala, Portugal, Turquia, etc. Convém não esquecer, por outro lado, que não poucos países, historicamente como regiões de imigração, tornaram-se recentemente terra de emigração, e vice-versa. Basta levar em conta o cruzamento do oceano Atlântico, há mais de um século, por italianos, alemães, poloneses, espanhóis, portugueses, etc. Hoje refazem o caminho inverso não apenas os seus netos e bisnetos, mas também numerosos brasileiros, peruanos, equatorianos, paraguaios, argentinos, e assim por diante.
A isso poder-se-ia acrescentar as levas e levas de trabalhadores que, temporária ou definitivamente, cruzam e recruzam as linhas divisórias dos países vizinhos. Migrações limítrofes que tornam as fronteiras tríplices ou dúplices territórios de extrema movimentação e dinamismo, retrato vivo da globalização de capital, tecnologia, serviços e mercadorias, mas com restrições crescentes às pessoas. Daí a pressão, também crescente, sobre os limites territoriais das nações. Impedidos de chegar pela porta da frente, que costuma peneirar os imigrantes mais aptos ou escolarizados, as multidões se aventuram pelos desertos, pelos mares e pelas florestas. Exemplo disso poderia ser a zona fronteiriça entre México e Estados Unidos, entre África do Sul e Zimbábue ou entre leste e oeste da Europa. Nessa perigosa travessia contam-se às centenas, se não aos milhares, o número de mortos, desaparecidos ou mutilados no corpo e na alma.
Nem precisaria acrescentar um ponto final. Mas este pode ficar por conta da resistência e da teimosia, da esperança e dos sonhos que põem os imigrantes em constante movimento. Muitos são órfãos das guerras, dos conflitos e de todo tipo de violência; outros, órfãos da pobreza, miséria e fome; e outros, são trabalhadores em movimento na terra, no ar ou nas águas. Migrantes, refugiados, deportados, exilados, marítimos, itinerantes, ciganos, fugitivos das catástrofes naturais, trabalhadores temporários... São antes de tudo fortes, parafraseando Euclides da Cunha. Fortes porque transformam a fuga em nova busca. Revelam além disso nossa condição de peregrinos na face da terra a caminho da pátria definitiva, o Reino de Deus.
No Brasil e no mundo, crescem os cursos, seminários, pesquisas e análises sobre o fenômeno migratório. Semelhante interesse pelas migrações passa, simultaneamente, pelas atividades dos movimentos e pastorais sociais, pelas salas de aula de faculdades e universidades, pelos laboratórios e bibliotecas dos institutos de pesquisa, pelos debates das conferências episcopais, pelos corredores e bastidores da política nacional e internacional, pelas preocupações das autoridades responsáveis pela aduana, etc. Inegavelmente, o tema da mobilidade humana, em todas as suas modalidades, causas, consequências e implicações, vem ganhando relevância a olhos vistos.
Reflexo disso são as teses de mestrado e doutorado, os estudos de caso e os eventos que se multiplicam para melhor compreender essa nova avalanche de deslocamentos humanos de massa. Tais deslocamentos costumam funcionar como fluxo e refluxo de tormentas nem sempre visíveis. Ondas aparentes e superficiais de correntes subterrâneas no campo da política e da economia. Conceitos como flexibilização, terceirização, globalização, nova geopolítica mundial, entre outros, expressam mudanças profundas em termos estruturais e macro-históricos. Seus reflexos transparecem nessas multidões irrequietas que, consciente ou inconscientemente, correm atrás de novas oportunidades de vida e trabalho.
Nesta perspectiva, as migrações adquirem a imagem de um tsuname, cujo epicentro do terremoto encontra-se oculto e distante. Ou a imagem de ponta de um iciberg cuja força e volume permanecem desconhecidos. No rearranjo da economia e das relações de poder em âmbito internacional bipolaridade das potências, multipolaridade, força dos países emergentes, nova polaridade entre Estados Unidos e China, relação sul-norte e leste-oeste, crise do sistema financeiro estão as razões invisíveis que movem as águas na superfície.
Neste cenário mundial, em que as nações se reacomodam como verdadeiras placas tectônicas da economia política, os emigrantes e imigrantes figuram simultaneamente como vítimas e protagonistas. Vítimas das assimetrias e desequilíbrios sociais que se produzem, reproduzem ou se aprofundam. Especialmente do sul para o norte e do oriente para o ocidente, massas anônimas buscam também reacomodar possibilidades mais promissoras de futuro. Protagonistas, na medida em que, pondo-se em marcha em grandes quantidades e em todas as direções, fazem marchar a própria história dos povos, nações e culturas. Se, por um lado, questionam estruturas injustas pelo simples fato de migrar, denunciando os países pátrios que lhes negam as mínimas condições de cidadãos, por outro, rompem com o conceito de fronteira, anunciando uma espécie de cidadania universal.
Difícil atualmente o país que não esteja envolvido com tais deslocamentos humanos. Alguns países aparecem como lugares predominantes de saída, outros, como pontos de chegada; outros, ainda, como áreas privilegiadas de trânsito ou travessia. Entre os primeiros, podemos colocar os povos da América Latina, África, Ásia e da ex-União Soviética; entre os segundos, os Estados Unidos, Europa, Japão e Austrália; entre os últimos, vale lembrar o México, a Guatemala, Portugal, Turquia, etc. Convém não esquecer, por outro lado, que não poucos países, historicamente como regiões de imigração, tornaram-se recentemente terra de emigração, e vice-versa. Basta levar em conta o cruzamento do oceano Atlântico, há mais de um século, por italianos, alemães, poloneses, espanhóis, portugueses, etc. Hoje refazem o caminho inverso não apenas os seus netos e bisnetos, mas também numerosos brasileiros, peruanos, equatorianos, paraguaios, argentinos, e assim por diante.
A isso poder-se-ia acrescentar as levas e levas de trabalhadores que, temporária ou definitivamente, cruzam e recruzam as linhas divisórias dos países vizinhos. Migrações limítrofes que tornam as fronteiras tríplices ou dúplices territórios de extrema movimentação e dinamismo, retrato vivo da globalização de capital, tecnologia, serviços e mercadorias, mas com restrições crescentes às pessoas. Daí a pressão, também crescente, sobre os limites territoriais das nações. Impedidos de chegar pela porta da frente, que costuma peneirar os imigrantes mais aptos ou escolarizados, as multidões se aventuram pelos desertos, pelos mares e pelas florestas. Exemplo disso poderia ser a zona fronteiriça entre México e Estados Unidos, entre África do Sul e Zimbábue ou entre leste e oeste da Europa. Nessa perigosa travessia contam-se às centenas, se não aos milhares, o número de mortos, desaparecidos ou mutilados no corpo e na alma.
Nem precisaria acrescentar um ponto final. Mas este pode ficar por conta da resistência e da teimosia, da esperança e dos sonhos que põem os imigrantes em constante movimento. Muitos são órfãos das guerras, dos conflitos e de todo tipo de violência; outros, órfãos da pobreza, miséria e fome; e outros, são trabalhadores em movimento na terra, no ar ou nas águas. Migrantes, refugiados, deportados, exilados, marítimos, itinerantes, ciganos, fugitivos das catástrofes naturais, trabalhadores temporários... São antes de tudo fortes, parafraseando Euclides da Cunha. Fortes porque transformam a fuga em nova busca. Revelam além disso nossa condição de peregrinos na face da terra a caminho da pátria definitiva, o Reino de Deus.
AGOSTO E SETEMBRO: VOCAÇÃO E BÍBLIA
Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
O entrelaçamento entre Vocação e Bíblia tem uma imagem apropriada no Evangelho de João, segunda parte do primeiro capítulo, versículos de 19 a 51. O quarto Evangelho marca o encontro entre João Batista e o aparecimento em público de Jesus: Eis o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo (v. 29). Com isso alguns discípulos do Batista passam a seguir Jesus. Três aspectos chamam a atenção nestes curtos parágrafos.
O primeiro se refere à pergunta de Jesus quando os dois discípulos intentam segui-lo: O que vocês estão procurando? (v. 38). Trata-se de uma pergunta fundamental. Tem claramente um tom antropológico, existencial, e não apenas de curiosidade. O que vocês estão procurando na vida? Que sentido dão vocês às atividades do dia-a-dia? De onde vocês vieram, para onde vão, quem são? É a pergunta pelo significado mais profundo da existência humana. Pergunta que acompanha cada um de nós do berço ao túmulo. Do nascer ao morrer, carregamos sobre os ombros a tarefa de encontrar uma razão para nossos dias, meses e anos. É uma pergunta dirigida a cada homem e mulher enquanto seres vocacionados. Pressupõe chamado e resposta, dom de Deus e busca humana, ou seja, as duas dimensões indissociáveis de toda vocação.
O segundo aspecto põe em evidência outra pergunta, desta vez dos discípulos, seguida da resposta de Jesus: Mestre, onde moras?. Venham e vocês verão! (vs. 38-39). A replica de Jesus é notoriamente evasiva. Como se quisesse dizer que não possui moradia fixa: Jesus não mora, caminha. Sua casa é uma tenda, jamais uma fortaleza. Fortaleza é a casa que se fecha sobre si mesma, levanta cercas e muros, cultiva o isolamento. A morada de Jesus é o Reino de Deus, na terra Ele está de passagem. Forasteiro que arma sua tenda entre nós, mas mantém a condição de peregrino itinerante. Mais que isso, sua resposta convida os discípulos a segui-lo pelos caminhos com os olhos fixos na Casa de Deus. Migrantes entre os migrantes!
Por fim, temos o encontro entre Jesus e o desconfiado Natanael. E a grande surpresa para este: Antes que Filipe chamasse você, eu o vi debaixo da figueira (v. 48). Seria lícito imaginar a figueira como o lugar onde Natanael foge de tudo e de todos para destilar a amargura de seus momentos difíceis? Lugar da nudez, do fundo do poço. Lugar do encontro consigo mesmo, com suas paixões, instintos, desejos, raivas, ciúmes, impotência... Afinal, em termos figurados, quem de nós não possui sua figueira, ou seus momentos de figueira? São as situações-limite da existência humana: doença, separação, fracasso, amor não correspondido, medos, angústias... Justamente ali Jesus diz ter visto Natanael.
E por isso mesmo Jesus o quer em seu grupo. Natanael, ao enfrentar-se com a própria nudez, com seus limites e fraquezas, está pronto para ser discípulo e depois missionário, utilizando a linguagem do Documento de Aparecida. A nudez da figueira abre espaço para uma maior compreensão em relação às limitações dos outros. Também ensina a desconfiar das próprias forças e a confiar na graça de Deus, nos irmãos e na comunidade. Numa palavra, a figueira depura e purifica o processo vocacional. Amplia o leque do amor, da misericórdia e da compaixão palavras-chave na Boa Nova do Evangelho especialmente em relação aos mais frágeis e desvalidos.
A experiência de Natanael, de olhar-se corajosamente no espelho, convida-nos a uma retrospectiva no caminho de nossa vocação. Quantas vezes nos vimos simbolicamente sob a figueira? Quantas vezes fomos tomados pelo desânimo, o desencanto, a tentativa de voltar atrás? Em cada um desses momentos, Jesus repete eu vi você! E envia um anjo pessoa da família, companheiro ou amigo, superior, pobre ou migrante para nos trazer um pedaço de pão e um jarro de água (como no caso de Elias, 1Rs, 19,1-8) e nos estimular a retomar a caminhada. Ora, se Deus esteve presente até hoje em nossos momentos de figueira, não será agora que irá nos abandonar. O eu vi você debaixo da figueira é uma garantia de que Jesus não chama apenas uma vez, mas continua a nutrir a vocação de cada um. Em síntese, vocação não representa um chamado e uma resposta em forma definitiva, mas um sim que tem de ser repetido durante todo o percurso da vida. Não é evento, mas processo lento e laborioso de amadurecimento.
O entrelaçamento entre Vocação e Bíblia tem uma imagem apropriada no Evangelho de João, segunda parte do primeiro capítulo, versículos de 19 a 51. O quarto Evangelho marca o encontro entre João Batista e o aparecimento em público de Jesus: Eis o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo (v. 29). Com isso alguns discípulos do Batista passam a seguir Jesus. Três aspectos chamam a atenção nestes curtos parágrafos.
O primeiro se refere à pergunta de Jesus quando os dois discípulos intentam segui-lo: O que vocês estão procurando? (v. 38). Trata-se de uma pergunta fundamental. Tem claramente um tom antropológico, existencial, e não apenas de curiosidade. O que vocês estão procurando na vida? Que sentido dão vocês às atividades do dia-a-dia? De onde vocês vieram, para onde vão, quem são? É a pergunta pelo significado mais profundo da existência humana. Pergunta que acompanha cada um de nós do berço ao túmulo. Do nascer ao morrer, carregamos sobre os ombros a tarefa de encontrar uma razão para nossos dias, meses e anos. É uma pergunta dirigida a cada homem e mulher enquanto seres vocacionados. Pressupõe chamado e resposta, dom de Deus e busca humana, ou seja, as duas dimensões indissociáveis de toda vocação.
O segundo aspecto põe em evidência outra pergunta, desta vez dos discípulos, seguida da resposta de Jesus: Mestre, onde moras?. Venham e vocês verão! (vs. 38-39). A replica de Jesus é notoriamente evasiva. Como se quisesse dizer que não possui moradia fixa: Jesus não mora, caminha. Sua casa é uma tenda, jamais uma fortaleza. Fortaleza é a casa que se fecha sobre si mesma, levanta cercas e muros, cultiva o isolamento. A morada de Jesus é o Reino de Deus, na terra Ele está de passagem. Forasteiro que arma sua tenda entre nós, mas mantém a condição de peregrino itinerante. Mais que isso, sua resposta convida os discípulos a segui-lo pelos caminhos com os olhos fixos na Casa de Deus. Migrantes entre os migrantes!
Por fim, temos o encontro entre Jesus e o desconfiado Natanael. E a grande surpresa para este: Antes que Filipe chamasse você, eu o vi debaixo da figueira (v. 48). Seria lícito imaginar a figueira como o lugar onde Natanael foge de tudo e de todos para destilar a amargura de seus momentos difíceis? Lugar da nudez, do fundo do poço. Lugar do encontro consigo mesmo, com suas paixões, instintos, desejos, raivas, ciúmes, impotência... Afinal, em termos figurados, quem de nós não possui sua figueira, ou seus momentos de figueira? São as situações-limite da existência humana: doença, separação, fracasso, amor não correspondido, medos, angústias... Justamente ali Jesus diz ter visto Natanael.
E por isso mesmo Jesus o quer em seu grupo. Natanael, ao enfrentar-se com a própria nudez, com seus limites e fraquezas, está pronto para ser discípulo e depois missionário, utilizando a linguagem do Documento de Aparecida. A nudez da figueira abre espaço para uma maior compreensão em relação às limitações dos outros. Também ensina a desconfiar das próprias forças e a confiar na graça de Deus, nos irmãos e na comunidade. Numa palavra, a figueira depura e purifica o processo vocacional. Amplia o leque do amor, da misericórdia e da compaixão palavras-chave na Boa Nova do Evangelho especialmente em relação aos mais frágeis e desvalidos.
A experiência de Natanael, de olhar-se corajosamente no espelho, convida-nos a uma retrospectiva no caminho de nossa vocação. Quantas vezes nos vimos simbolicamente sob a figueira? Quantas vezes fomos tomados pelo desânimo, o desencanto, a tentativa de voltar atrás? Em cada um desses momentos, Jesus repete eu vi você! E envia um anjo pessoa da família, companheiro ou amigo, superior, pobre ou migrante para nos trazer um pedaço de pão e um jarro de água (como no caso de Elias, 1Rs, 19,1-8) e nos estimular a retomar a caminhada. Ora, se Deus esteve presente até hoje em nossos momentos de figueira, não será agora que irá nos abandonar. O eu vi você debaixo da figueira é uma garantia de que Jesus não chama apenas uma vez, mas continua a nutrir a vocação de cada um. Em síntese, vocação não representa um chamado e uma resposta em forma definitiva, mas um sim que tem de ser repetido durante todo o percurso da vida. Não é evento, mas processo lento e laborioso de amadurecimento.
ACOLHIDA
Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
O tema da acolhida comporta sempre dois lados: acolher e ser acolhido. Somente será capaz de acolher aquele que se sente acolhido. E ao contrário, todo rechaço é simultaneamente causa e efeito de uma atitude de rejeição. Esta tem necessariamente mão dupla. A recusa do diálogo e da escuta, no fundo, costuma ser recíproca. Isso vale tanto para os laços humanos (relações horizontais) quanto para a intimidade com Deus (relações verticais), embora nesta última, como veremos, a reciprocidade do auto-fechamento tem aparência enganosa.
No primeiro caso, em que se tomam em conta as relações entre os seres humanos, o isolamento e a recusa raramente são unilaterais. Um olhar que se desvia de outro, um coração que não encontra repouso em sua própria casa, uma alma que experimenta a solidão entre os companheiros tudo isso representa, em geral, um ambiente fechado sobre si mesmo. O olhar, o coração e a alma captam e destilam, ao mesmo tempo, um oxigênio hostil no interior de uma atmosfera pesada. Um veneno indefinido e irrespirável asfixia e sufoca: contamina não um ou outro lado, mas a possibilidade mesma de comunicação.
Engendra-se um constrangimento mútuo e mutuamente pernicioso e progressivo. Em lugar de pontes que unem, levantam-se muros obstáculos a uma relação sadia. Fronteiras visíveis ou invisíveis demarcam campos opostos e incomunicáveis. Uma espécie de vírus discriminatório instala-se nas palavras e nos silêncios, tornando todo o organismo cerrado ao diálogo comunicativo. É o contrário da teoria do agir comunicacional, estudo do filósofo alemão Jürgen Habermas! Com o tempo, esgarça-se a coesão do tecido social e cria-se um individualismo exacerbado e atomizado, onde as partículas tendem a girar em torno do eu como átomo central. Desfaz-se a comunidade e cada indivíduo volta-se sobre o próprio umbigo, defendendo seus interesses particulares.
No caso do processo de intimidade com Deus, talvez inadequadamente chamada de relação vertical, as coisas ocorrem da mesma forma, não obstante os matizes distintos. A pessoa que, na busca sincera e incessante do divino, não estiver disposta a abrir-se ao desconhecido, encontrará um ser oculto e ausente, longínquo e indiferente. Não que Deus seja estranho ao destino humano e à trajetória da humanidade. Mas aquele que, de um lado, se fecha à sua graça e revelação, ou, de outro lado, tenta manipular e instrumentalizar sua presença, também experimentará o estranhamento. Tropeça inevitavelmente com o silêncio opaco e misterioso do Transcendente.
Como lembra o Livro do Apocalipse, Ele está à porta e bate, porém, jamais violará a liberdade humana. Se a pessoa não se dispõe a abrir a porta e o coração, o encontro está definitivamente fracassado. Se, ao invés, a porta se abre, o que só pode ocorrer a partir de dentro, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo (Ap 3,20). A recusa do ser humano traz como resultado a sensação de que Deus também o recusou. Deixou-o órfão, perdido e só, abandonando-o à própria sorte. Neste caso, apesar da aparência de bilateralidade, o rechaço é francamente unilateral. Ou seja, o encontro e o diálogo se tornam inviáveis porque o ser humano teme as conseqüências de uma abertura ao mistério, que sempre interpela, questiona e desinstala.
A esta altura surge mais claramente o entrelaçamento entre as relações horizontais e as relações verticais. Verifica-se aqui uma nova forma de reciprocidade. A acolhida ao outro pavimenta o caminho para o encontro com o totalmente Outro. De igual maneira, o aprofundamento da intimidade com Deus amplia a disposição para acolher o estrangeiro, independentemente de sua origem, raça, língua ou nação. Dito de outra forma, o diálogo com o diferente desvenda horizontes para enriquecer a relação com o Transcendente. Este processo de crescimento espiritual, por outro lado, franqueia a porta para os que chegam de fora e de longe. Nasce um círculo virtuoso: a acolhida ao outro e a abertura a Deus constituem duas faces da mesma moeda. Em outras palavras, o caminho para o Pai passa necessariamente pelo irmão, e vice-versa, o encontro com o estranho e diferente exige a intimidade com o Transcendente.
Por outro lado, a negação a Deus e ao outro são igualmente recíprocas. Fechar a porta ao estrangeiro é fechá-la do próprio Deus. E inversamente, fugir à face do Transcendente é esquivar-se do confronto com o diferente. Como dizia Anna Fumagalli no II Seminário sobre Teologia, Migração e Missão, Deus abandona a pátria celeste e nos visita na pátria terrestre, para a abrir a todos a porta do Reino dos Céus. Aqui encontra-se resumida toda a teologia e espiritualidade da encarnação: Sendo de condição divina, Ele não se apega ciosamente a esse privilégio (processo de Kenosis, no hino da Carta aos Filipenses Fl 2,6-11), desce ao terreno da história, arma sua tenda entre nós, para nos elevar. Faz-se forasteiro nos embates da humanidade para nos tornar irmãos. Forasteiro e hóspede que, no episódio dos discípulos de Emaús, por exemplo, se converte em anfitrião. À mesa, oferece pão e salvação (Lc 24,13-35)!
Mais que isso! Na linha do filósofo francês Emmanuel Lévinas, o processo de busca e de construção da própria identidade requer o confronto com o outro em seu duplo sentido, humano e divino. Ou então, na assertiva de Hans-Georg Gadamer, o outro tem algo a dizer não só sobre si mesmo, mas sobre mim (Verdade e Método). Trata-se, em síntese, de uma relação que cresce em sentido dialeticamente tríplice: a descoberta do eu, do outro e de Deus tem implicações mútuas e simultâneas.
Amplia-se, assim, a idéia de que acolher é esperar o outro, recebê-lo bem. Aqui estamos a meio caminho do conceito de acolhida. Esta, além de exigir boa recepção, comporta um ir ao encontro. Também neste aspecto acolhida tem mão dupla: abrir a porta e o coração a quem chega, por um lado, e, por outro, pôr-se a caminho e estender os braços a quem está distante, fora, marginalizado, excluído, sem pão e sem pátria.
O tema da acolhida comporta sempre dois lados: acolher e ser acolhido. Somente será capaz de acolher aquele que se sente acolhido. E ao contrário, todo rechaço é simultaneamente causa e efeito de uma atitude de rejeição. Esta tem necessariamente mão dupla. A recusa do diálogo e da escuta, no fundo, costuma ser recíproca. Isso vale tanto para os laços humanos (relações horizontais) quanto para a intimidade com Deus (relações verticais), embora nesta última, como veremos, a reciprocidade do auto-fechamento tem aparência enganosa.
No primeiro caso, em que se tomam em conta as relações entre os seres humanos, o isolamento e a recusa raramente são unilaterais. Um olhar que se desvia de outro, um coração que não encontra repouso em sua própria casa, uma alma que experimenta a solidão entre os companheiros tudo isso representa, em geral, um ambiente fechado sobre si mesmo. O olhar, o coração e a alma captam e destilam, ao mesmo tempo, um oxigênio hostil no interior de uma atmosfera pesada. Um veneno indefinido e irrespirável asfixia e sufoca: contamina não um ou outro lado, mas a possibilidade mesma de comunicação.
Engendra-se um constrangimento mútuo e mutuamente pernicioso e progressivo. Em lugar de pontes que unem, levantam-se muros obstáculos a uma relação sadia. Fronteiras visíveis ou invisíveis demarcam campos opostos e incomunicáveis. Uma espécie de vírus discriminatório instala-se nas palavras e nos silêncios, tornando todo o organismo cerrado ao diálogo comunicativo. É o contrário da teoria do agir comunicacional, estudo do filósofo alemão Jürgen Habermas! Com o tempo, esgarça-se a coesão do tecido social e cria-se um individualismo exacerbado e atomizado, onde as partículas tendem a girar em torno do eu como átomo central. Desfaz-se a comunidade e cada indivíduo volta-se sobre o próprio umbigo, defendendo seus interesses particulares.
No caso do processo de intimidade com Deus, talvez inadequadamente chamada de relação vertical, as coisas ocorrem da mesma forma, não obstante os matizes distintos. A pessoa que, na busca sincera e incessante do divino, não estiver disposta a abrir-se ao desconhecido, encontrará um ser oculto e ausente, longínquo e indiferente. Não que Deus seja estranho ao destino humano e à trajetória da humanidade. Mas aquele que, de um lado, se fecha à sua graça e revelação, ou, de outro lado, tenta manipular e instrumentalizar sua presença, também experimentará o estranhamento. Tropeça inevitavelmente com o silêncio opaco e misterioso do Transcendente.
Como lembra o Livro do Apocalipse, Ele está à porta e bate, porém, jamais violará a liberdade humana. Se a pessoa não se dispõe a abrir a porta e o coração, o encontro está definitivamente fracassado. Se, ao invés, a porta se abre, o que só pode ocorrer a partir de dentro, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo (Ap 3,20). A recusa do ser humano traz como resultado a sensação de que Deus também o recusou. Deixou-o órfão, perdido e só, abandonando-o à própria sorte. Neste caso, apesar da aparência de bilateralidade, o rechaço é francamente unilateral. Ou seja, o encontro e o diálogo se tornam inviáveis porque o ser humano teme as conseqüências de uma abertura ao mistério, que sempre interpela, questiona e desinstala.
A esta altura surge mais claramente o entrelaçamento entre as relações horizontais e as relações verticais. Verifica-se aqui uma nova forma de reciprocidade. A acolhida ao outro pavimenta o caminho para o encontro com o totalmente Outro. De igual maneira, o aprofundamento da intimidade com Deus amplia a disposição para acolher o estrangeiro, independentemente de sua origem, raça, língua ou nação. Dito de outra forma, o diálogo com o diferente desvenda horizontes para enriquecer a relação com o Transcendente. Este processo de crescimento espiritual, por outro lado, franqueia a porta para os que chegam de fora e de longe. Nasce um círculo virtuoso: a acolhida ao outro e a abertura a Deus constituem duas faces da mesma moeda. Em outras palavras, o caminho para o Pai passa necessariamente pelo irmão, e vice-versa, o encontro com o estranho e diferente exige a intimidade com o Transcendente.
Por outro lado, a negação a Deus e ao outro são igualmente recíprocas. Fechar a porta ao estrangeiro é fechá-la do próprio Deus. E inversamente, fugir à face do Transcendente é esquivar-se do confronto com o diferente. Como dizia Anna Fumagalli no II Seminário sobre Teologia, Migração e Missão, Deus abandona a pátria celeste e nos visita na pátria terrestre, para a abrir a todos a porta do Reino dos Céus. Aqui encontra-se resumida toda a teologia e espiritualidade da encarnação: Sendo de condição divina, Ele não se apega ciosamente a esse privilégio (processo de Kenosis, no hino da Carta aos Filipenses Fl 2,6-11), desce ao terreno da história, arma sua tenda entre nós, para nos elevar. Faz-se forasteiro nos embates da humanidade para nos tornar irmãos. Forasteiro e hóspede que, no episódio dos discípulos de Emaús, por exemplo, se converte em anfitrião. À mesa, oferece pão e salvação (Lc 24,13-35)!
Mais que isso! Na linha do filósofo francês Emmanuel Lévinas, o processo de busca e de construção da própria identidade requer o confronto com o outro em seu duplo sentido, humano e divino. Ou então, na assertiva de Hans-Georg Gadamer, o outro tem algo a dizer não só sobre si mesmo, mas sobre mim (Verdade e Método). Trata-se, em síntese, de uma relação que cresce em sentido dialeticamente tríplice: a descoberta do eu, do outro e de Deus tem implicações mútuas e simultâneas.
Amplia-se, assim, a idéia de que acolher é esperar o outro, recebê-lo bem. Aqui estamos a meio caminho do conceito de acolhida. Esta, além de exigir boa recepção, comporta um ir ao encontro. Também neste aspecto acolhida tem mão dupla: abrir a porta e o coração a quem chega, por um lado, e, por outro, pôr-se a caminho e estender os braços a quem está distante, fora, marginalizado, excluído, sem pão e sem pátria.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Ganância e Cumplicidade matam treze trabalhadores no Pará
A Coordenação Nacional da CPT, chocada com uma chacina de grandes proporções no Assentamento Rio Cururuí, município de Pacajá, PA, chama a atenção da sociedade brasileira para o clima de violência na região e responsabiliza as autoridades por novos massacres que possam ocorrer caso providências efetivas não forem tomadas.
Entre os dias 17 e 19 de setembro, 13 trabalhadores do PA Rio Cururuí, foram assassinados num conflito que vinha sendo anunciado há tempo. A causa geradora desta estúpida violência são os interesses de madeireiras que, para obter lucros cada vez maiores, corrompem funcionários públicos e lideranças de assentamentos semeando a sizânia da ganância e da discórdia entre os assentados da reforma agrária e de outras comunidades..
O asssentamento Rio Cururuí foi criado pelo Incra em terras da União e implantado em 2005. A área, porém, era cobiçada pelas madeireiras. Em maio de 2007, a imprensa noticiou que pistoleiros ligados a madeireiros expulsaram dezenas de famílias da área, destruindo seus bens. As famílias que retornaram viviam dominadas pelo medo de novamente serem agredidas.
As CPTs de Anapu e de Tucuruí, desde 2008, vêm recebendo denúncias de assentados sobre o abandono em que vivem. A isto se acrescentou um novo complicador. Um grupo de 70 famílias começou a ser pressionado pelo Incra e pelos dirigentes do assentamento, ligado à Fetraf (Federação dos Trabalhadores na Agricultura), a deixarem a área na qual haviam sido colocados pelo Incra ainda em 2004, antes da implantação do assentamento, sob a alegação de ocuparem a área de reserva legal do projeto. A reserva, porém, está sendo explorada por madeireiros, alguns presumivelmente sem a devida autorização de manejo florestal pois, em junho deste ano, o IBAMA e policias da Delegacia de Conflitos Agrários do Pará (DECA) prenderam 1.4 mil metros cúbicos de madeira retirados ilegalmente da área.
As denúncias dos assentados repassadas à Ouvidora Agrária Nacional do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) chegaram ao conhecimento dos que estavam sendo denunciados o que desencadeou o conflito que assumiu as dimensões de uma chacina.
A Coordenação Nacional da CPT afirma que a política de manejo florestal que incide muitas vezes sobre áreas de assentamentos, ou de comunidades tradicionais, visa única e exclusivamente o crescimento econômico que se concentra nas grandes madeireiras. Estas utilizam de todos os instrumentos possíveis, legais e ilegais, para explorar a rica diversidade florestal de nosso país. Corromper funcionários públicos e lideranças das comunidades faz parte de sua estratégia. As comunidades camponesas e os assentados, na maior parte das vezes, são totalmente excluídos dos “benefícios” deste manejo.
O que acontece hoje na Amazônia é a repetição do que ocorreu em todo o território nacional desde a época do Brasil Colônia. A natureza é vista como mera fonte de riquezas e é sistematicamente depredada para gerar divisas. As comunidades são espoliadas dos poucos bens que possam ter, quando não fisicamente eliminadas.
A CPT vê ainda como uma outra fonte potencial de conflitos e violência a aprovação da MP 458, transformada na lei 11.952/09 que regulariza a grilagem de terras na Amazônia. Surgem, em diversos pontos, notícias de conflitos de interesses entre os que buscam a regularização e as famílias as comunidades que tradicionalmente ocupam aquelas terras.
É hora de colocar um ponto final em tanta violência. Titular as terras e territórios das comunidades tradicionais e realizar uma Reforma Agrária ampla com a participação das comunidades e trabalhadores é condição sine qua non para que haja paz no campo
Goiânia, 30 de setembro de 2010
A Coordenação Nacional
Maiores informações:
CPT Tucurui – (94) 3787-2588
CPT Nacional - Setor de Comunicação – (62) 4008-6412
Entre os dias 17 e 19 de setembro, 13 trabalhadores do PA Rio Cururuí, foram assassinados num conflito que vinha sendo anunciado há tempo. A causa geradora desta estúpida violência são os interesses de madeireiras que, para obter lucros cada vez maiores, corrompem funcionários públicos e lideranças de assentamentos semeando a sizânia da ganância e da discórdia entre os assentados da reforma agrária e de outras comunidades..
O asssentamento Rio Cururuí foi criado pelo Incra em terras da União e implantado em 2005. A área, porém, era cobiçada pelas madeireiras. Em maio de 2007, a imprensa noticiou que pistoleiros ligados a madeireiros expulsaram dezenas de famílias da área, destruindo seus bens. As famílias que retornaram viviam dominadas pelo medo de novamente serem agredidas.
As CPTs de Anapu e de Tucuruí, desde 2008, vêm recebendo denúncias de assentados sobre o abandono em que vivem. A isto se acrescentou um novo complicador. Um grupo de 70 famílias começou a ser pressionado pelo Incra e pelos dirigentes do assentamento, ligado à Fetraf (Federação dos Trabalhadores na Agricultura), a deixarem a área na qual haviam sido colocados pelo Incra ainda em 2004, antes da implantação do assentamento, sob a alegação de ocuparem a área de reserva legal do projeto. A reserva, porém, está sendo explorada por madeireiros, alguns presumivelmente sem a devida autorização de manejo florestal pois, em junho deste ano, o IBAMA e policias da Delegacia de Conflitos Agrários do Pará (DECA) prenderam 1.4 mil metros cúbicos de madeira retirados ilegalmente da área.
As denúncias dos assentados repassadas à Ouvidora Agrária Nacional do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) chegaram ao conhecimento dos que estavam sendo denunciados o que desencadeou o conflito que assumiu as dimensões de uma chacina.
A Coordenação Nacional da CPT afirma que a política de manejo florestal que incide muitas vezes sobre áreas de assentamentos, ou de comunidades tradicionais, visa única e exclusivamente o crescimento econômico que se concentra nas grandes madeireiras. Estas utilizam de todos os instrumentos possíveis, legais e ilegais, para explorar a rica diversidade florestal de nosso país. Corromper funcionários públicos e lideranças das comunidades faz parte de sua estratégia. As comunidades camponesas e os assentados, na maior parte das vezes, são totalmente excluídos dos “benefícios” deste manejo.
O que acontece hoje na Amazônia é a repetição do que ocorreu em todo o território nacional desde a época do Brasil Colônia. A natureza é vista como mera fonte de riquezas e é sistematicamente depredada para gerar divisas. As comunidades são espoliadas dos poucos bens que possam ter, quando não fisicamente eliminadas.
A CPT vê ainda como uma outra fonte potencial de conflitos e violência a aprovação da MP 458, transformada na lei 11.952/09 que regulariza a grilagem de terras na Amazônia. Surgem, em diversos pontos, notícias de conflitos de interesses entre os que buscam a regularização e as famílias as comunidades que tradicionalmente ocupam aquelas terras.
É hora de colocar um ponto final em tanta violência. Titular as terras e territórios das comunidades tradicionais e realizar uma Reforma Agrária ampla com a participação das comunidades e trabalhadores é condição sine qua non para que haja paz no campo
Goiânia, 30 de setembro de 2010
A Coordenação Nacional
Maiores informações:
CPT Tucurui – (94) 3787-2588
CPT Nacional - Setor de Comunicação – (62) 4008-6412
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