quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Grito dos Excluídos em Manaus

Desta vez tive a alegria de estar em Manaus, onde fui pregar o retiro para os seminaristas e concluir o retiro participando junto com eles do Grito realizado no dia 7 de Setembro. Foi bonito. Pessoalmente, pude fazer a ponte entre o primeiro Grito e o Grito deste ano, me encontrando na Amazônia. Há 15 anos, quando surgiu a idéia de fazermos o "Grito dos Excluídos", já havia o "Grito da Amazônia" e foi este "Grito da Amazônia" que propiciou a inspiração de fazermos, por que não, o "Grito dos Excluídos". Estando lá na Amazônia, percebi melhor como o Grito dos Excluído tornou-se a expressão de todos os gritos de nosso povo. Neste ano, tive a alegria de comprovar como o Grito é importante. Vendo a maneira alegre, consciente e bem organizada do Grito realizado em Manaus, me dei conta da força, da mística e do sentido que possui o Grito. Enquanto o povo ia-se aglomerando no local da concentração, nas proximidades do terminal rodoviário da cidade, iam-se sucedendo as denúncias, bem elaboradas, concretas, ligadas a problemas vividos pelos habitantes, sobretudo das periferias de Manaus. Fiquei pensando: se não fosse o Grito, quem iria levantar estas denúncias? O Grito se tornou uma plataforma política de grande valor para o exercício da cidadania. Depois foram apresentadas diversas encenações, com a presença marcante de adolescentes e jovens que souberam expressar suas denúncias de maneira artística. O Grito conseguiu despertar o interesse da imprensa, que se fez presente e pode constatar que o Grito tem substância e é um canal positivo para o povo expressar seus anseios no dia da Pátria. Assim, minha viagem a Manaus foi melhor do que eu esperava: fizemos um retiro muito bom com os seminaristas da Amazônia, que estudam no Seminário de Manaus, e participamos junto com eles do Grito dos Excluídos. Foi muito bom! D. Demétrio Valentini
Presidente do SPM

Marchando por um mundo sem muros e humanitário

José Carlos Alves Pereira
(Serviço Pastoral dos Migrantes – SPM)

O IV Fórum Social Mundial das Migrações - FSMM encerrou-se em 12 de Outubro com uma forte, politizada e multicolorida marcha de cerca de 2000 pessoas. Elas partiram às 09:00 do Centro Cultural da PUC-Equador até a Praça Santo Domingo, onde houve apresentações, ritos, falas e cantorias. Muitas dezenas de entidades e movimento social de 43 países estavam presentes com seus militantes e lideranças empunhando suas faixas, bandeiras, cartazes e cantando palavras de ordem como “Povos em movimento por uma cidadania universal”, “Por um mundo sem fronteiras, nossa terra, nossos sonhos, nossos direitos, nossa morada”.

A forte presença das mulheres, dos jovens e do movimento indígena camponês foram os destaques da marcha. Mulheres migrantes das cidades, mulheres migrantes dos campos, mulheres migrantes caiçaras clamavam e cantavam pela derrubada do patriarcado, pela prevenção e combate à exploração sexual e ao tráfico de seres humanos. Reivindicavam seus direitos de trabalho digno e igualdade política e social.

Os jovens bradavam pelo fim da exclusão social, pela derrubada dos muros e fronteiras de países que violam os direitos humanos e impedem o gozo do direito de viver e caminhar na Terra como pátria mãe de todos os povos. Cantavam a educação, a saúde, a arte, a participação política, a liberdade de expressão e o trabalho digno como direitos universais.

As mulheres e homens indígenas clamavam por uma terra mãe que acolhesse a todos e todas garantindo-lhes pleno acesso à água, a sementes crioulas, a alimentos saudáveis, ao respeito por suas culturas, credos e modos de vida.
Juntos, todos denunciavam o modelo capitalista de civilização como o grande gerador de desigualdades, destruidor da humanidade e da natureza.

Os equatorianos às portas de lojas, calçadas e janelas tinham os olhos brilhantes e embebidos pelo mar de gente marchando pela derrubada dos muros, fronteiras e desigualdades que violam os direitos humanos

Com suas gentes, seus brados, bandeiras, cantos e cores, a marcha preencheu ruas e avenidas inteiras. Quase não cabia dentro delas, e, foi se derramar, inundar a Praça Santo Domingo no centro histórico de Quito.

A confluência para a praça transformou-se em rito, liturgia, mística que entrelaçou sonhos, lutas, povos, mulheres, homens, jovens e lideranças. A esta altura, nem o escaldante sol equatoriano do meio dia conseguiu abafar suas vozes, seus cantos ou murchar suas esperanças de construção de um novo modelo de civilização caracterizado pela diversidade de culturas, e não por hierarquias entre elas; pelo pleno direito de migrar, mas também de ficar; pela dignidade de todas as pessoas migrantes sem distinção de sexo, etnia e classe social; por um desenvolvimento social, econômico e ambiental sustentável; pelo surgimento e protagonismo de novos atores sociais em um marco de justiça e democracia plenas.

A marcha representou uma bela síntese do Fórum e a expressão da luta por reconhecimento de um mundo sem muros e todas as mulheres e homens como cidadãs e cidadãos universais. As pessoas marcharam, falaram, apresentaram, cantaram com uma simbiose entre suas mentes, sonhos e corações. Vivendo a experiência da marcha, tive alimentadas e fortalecidas minhas convicções de que a mobilização e organização popular criam, formam, educam novos atores sociais capazes de sonhar, lutar e construir um outro mundo, onde não a mercadoria, mas a pessoa humana seja a prioridade das relações sociais.

Fórum Social Mundial das Migrações começou hoje (8) em Quito

Tatiana Félix *

Adital -
"Povos em movimento por uma cidadania universal. Derrubando o modelo, construindo atores" é o lema que embala o IV Fórum Social Mundial das Migrações (FSMM) que começou hoje (8) em Quito, no Equador. A expectativa é de reunir mais de três mil pessoas de cerca de 90 países, que se posicionam contrárias ao modelo de globalização neoliberal, para participarem das discussões em torno da mobilidade dos povos, direitos e cidadania.

Movimentos sociais e religiosos, e diversas organizações da sociedade civil e integrantes do Grito dos Excluídos, de todos os continentes, integram o Comitê Internacional do FSMM, numa intensa mobilização mundial em defesa dos direitos das pessoas migrantes, refugiadas, deslocadas e apátridas.

Quatro eixos temáticos dão o direcionamento dos debates: "Crises globais e fluxos migratórios", "Direitos Humanos e Migração", "Diversidade, convivência e transformações socioculturais" e "Novas formas de escravidão, servidão e exploração humana". Além destes temas principais, serão abordados ainda assuntos transversais como Gênero, Etnicidade, Religiosidade e Interculturalidade.

Para refletir sobre essas questões serão realizadas conferências, seminários, painéis e oficinas. As atividades acontecem na Casa da Cultura Equatoriana, na Pontifícia Universidade Católica do Equador (PUCE), na Universidade Politécnica Salesiana (UPS) e na Escola Politécnica Nacional (EPN).

O objetivo é buscar propostas que possam ser apresentadas aos países como medidas de solução de problemas que envolvem o dia-a-dia da população migrantes, marcado por preconceitos e discriminações.

Para amanhã, sábado (9), está prevista a atividade de Integração regional, migrações e luta pelos bens comuns na América Central e os debates sobre os temas "Migração: desenvolvimento da integração dos povos" e "A crise mundial e seu impacto sobre a participação, a cidadania universal e a integração". No domingo (10) acontecem mais seminários, painéis e oficinas. Já a segunda-feira (11), será animada com uma grande Assembleia dos Movimentos Sociais.

O encerramento do IV FSMM será na terça-feira (12) junto com o V Congresso da Coordenadoria Latinoamericana de Organizações do Campo (Cloc) - Via Campesina.

Eventos Paralelos
Nos dias 11 e 12 também acontece em Quito o II Fórum de Autoridades Locais Cidades Abertas para manter o debate regional sobre as questões de migração com foco nos direitos humanos.

O Fórum das Migrações acontecerá ainda de maneira simultânea em Barcelona, na Espanha, e apresentará um mostra de Cinema de Fronteiras, para que o público tenha uma ampla ideia sobre divisões territoriais. Durante a mostra, será estabelecido um diálogo sobre o tema migração, por meio de teleconferência entre especialistas de Quito e de Barcelona.

Histórico do FSMM

A primeira edição do Fórum Social Mundial das Migrações aconteceu em 2001, no Brasil, refletindo sobre o tema "Travessias na desordem global". Já a segunda e terceira edições foram realizadas na Espanha abordando as temáticas: "Cidadania universal e Direitos Humanos. Outro mundo é possível, necessário e urgente" e "Nossas vozes, nossos direitos, por um mundo sem muros", respectivamente.
Na Carta de Princípios do Fórum Social Mundial das Migrações, criada a partir da primeira experiência do encontro no Brasil, os militantes declaram que as propostas do Fórum se opõem a um processo de globalização, comandado por grandes corporações multinacionais e pelos governos e instituições que sirvam a seus interesses. A orientação do movimento é que a globalização se transforme em um modelo solidário, respeitando os direitos humanos universais de todos os cidadãos e o meio ambiente, com base na justiça social, igualdade e soberania dos povos.
Acompanhe as atividades do IV FSMM através do site: http://www.fsmm2010.ec

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Entidades produzem documento sobre igualdade de gênero na educação brasileira

Adital -
O Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem), a ONG Ação Educativa e outras organizações estão produzindo um documento sobre a equidade de gênero na educação do Brasil, com o objetivo de desenvolver ações para superar a desigualdade e a violência de gênero. O material sobre ‘Educação Não Sexista e Anti-Discriminatória’ deverá estar pronto até o final de novembro e trará um diagnóstico regional a respeito da educação e das relações de gênero.
De acordo com a integrante da coordenação executiva de Ação Educativa e Relatora Nacional para o Direito Humano à Educação (Plataforma Dhesca/Brasil), Denise Carreira, o informe brasileiro terá dados sobre temas que afetam o desempenho escolar de meninas, jovens e mulheres, como gravidez na adolescência, violência nos estabelecimentos de ensino, discriminação regional e desigualdade racial.


Mais informações sobre a iniciativa podem ser obtidas no site www.educacion-nosexista.org.

Fonte: Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Fórum Social Mundial das Migrações

Tatiana Félix *

Adital -
"Povos em movimento por uma cidadania universal. Derrubando o modelo, construindo atores" é o lema que embala o IV Fórum Social Mundial das Migrações (FSMM) que começou no dia 8, em Quito, no Equador. A expectativa é de reunir mais de três mil pessoas de cerca de 90 países, que se posicionam contrárias ao modelo de globalização neoliberal, para participarem das discussões em torno da mobilidade dos povos, direitos e cidadania.

Movimentos sociais e religiosos, e diversas organizações da sociedade civil e integrantes do Grito dos Excluídos, de todos os continentes, integram o Comitê Internacional do FSMM, numa intensa mobilização mundial em defesa dos direitos das pessoas migrantes, refugiadas, deslocadas e apátridas.


Quatro eixos temáticos dão o direcionamento dos debates: "Crises globais e fluxos migratórios", "Direitos Humanos e Migração", "Diversidade, convivência e transformações socioculturais" e "Novas formas de escravidão, servidão e exploração humana". Além destes temas principais, serão abordados ainda assuntos transversais como Gênero, Etnicidade, Religiosidade e Interculturalidade.

Para refletir sobre essas questões serão realizadas conferências, seminários, painéis e oficinas. As atividades acontecem na Casa da Cultura Equatoriana, na Pontifícia Universidade Católica do Equador (PUCE), na Universidade Politécnica Salesiana (UPS) e na Escola Politécnica Nacional (EPN).

O objetivo é buscar propostas que possam ser apresentadas aos países como medidas de solução de problemas que envolvem o dia-a-dia da população migrantes, marcado por preconceitos e discriminações.

Para amanhã, sábado (9), está prevista a atividade de Integração regional, migrações e luta pelos bens comuns na América Central e os debates sobre os temas "Migração: desenvolvimento da integração dos povos" e "A crise mundial e seu impacto sobre a participação, a cidadania universal e a integração". No domingo (10) acontecem mais seminários, painéis e oficinas. Já a segunda-feira (11), será animada com uma grande Assembleia dos Movimentos Sociais.

O encerramento do IV FSMM será na terça-feira (12) junto com o V Congresso da Coordenadoria Latinoamericana de Organizações do Campo (Cloc) - Via Campesina.

Eventos Paralelos

Nos dias 11 e 12 também acontece em Quito o II Fórum de Autoridades Locais Cidades Abertas para manter o debate regional sobre as questões de migração com foco nos direitos humanos.

O Fórum das Migrações acontecerá ainda de maneira simultânea em Barcelona, na Espanha, e apresentará um mostra de Cinema de Fronteiras, para que o público tenha uma ampla ideia sobre divisões territoriais. Durante a mostra, será estabelecido um diálogo sobre o tema migração, por meio de teleconferência entre especialistas de Quito e de Barcelona.

Histórico do FSMM

A primeira edição do Fórum Social Mundial das Migrações aconteceu em 2001, no Brasil, refletindo sobre o tema "Travessias na desordem global". Já a segunda e terceira edições foram realizadas na Espanha abordando as temáticas: "Cidadania universal e Direitos Humanos. Outro mundo é possível, necessário e urgente" e "Nossas vozes, nossos direitos, por um mundo sem muros", respectivamente.

Na Carta de Princípios do Fórum Social Mundial das Migrações, criada a partir da primeira experiência do encontro no Brasil, os militantes declaram que as propostas do Fórum se opõem a um processo de globalização, comandado por grandes corporações multinacionais e pelos governos e instituições que sirvam a seus interesses. A orientação do movimento é que a globalização se transforme em um modelo solidário, respeitando os direitos humanos universais de todos os cidadãos e o meio ambiente, com base na justiça social, igualdade e soberania dos povos.

Acompanhe as atividades do IV FSMM através do site: http://www.fsmm2010.ec


* Jornalista da Adital

SITUAÇÃO DE MIGRANTES É PREOCUPANTE EM TODO O MUNDO

Genebra, 1º out (RV) - Um documento publicado nesta quinta-feira, em Genebra, pelo Grupo Global de Migração que reúne doze agências das Nações Unidas, comunica à comunidade internacional as dificuldades dos migrantes em situação irregular em todo o mundo.

Segundo informações da Rádio Onu, é preocupante a situação de "discriminação, exclusão, maus-tratos e violações de direitos" que têm sido constatados no tratamento dado a essas pessoas. Os maus-tratos, muitas vezes, chegam a longos períodos de encarceramento, ou pior, a homicídios.

O grupo que, além das doze agências, inclui o Banco Mundial e a Organização Internacional para Migrações, denunciou ainda, que as crianças são as vítimas mais vulneráveis, principalmente, as que viajam desacompanhadas.

A presidente da Ong "Associação Comunitária", Magdala Gusmão, em entrevista à Rádio Onu, denunciou a discriminação que sofrem as mulheres nos países europeus. Ela trabalha com mulheres migrantes africanas e brasileiras, as quais – segundo Magdala - enfrentam situações de abusos, principalmente, aquelas que trabalham como domésticas. Ela explica que os abusos são agravados, porque as migrantes têm medo de denunciá-los às autoridades.

O Grupo Global de Migração pediu aos países que estejam atentos e denunciem aos órgãos competentes as situações de abusos contra os migrantes tão logo tomarem conhecimento de tais situações. (ED)

sábado, 2 de outubro de 2010

O OLHAR

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

Todo o olhar desvenda e desnuda. Ao pousar sobre outro, tira as máscaras, vê além das aparências. Ocorre isso porque os olhos costumam ser a janela da alma. Revelam em geral aquilo que gostaríamos de ocultar aos demais. Em numerosas ocasiões desmentem os gestos e a verborréia das palavras. Até mesmo os animais, com seu olhar aparentemente neutro e inexpressivo, muitas vezes parecem trazer à luz sentimentos genuinamente humanos, tais como tristeza e alegria, saudade e euforia, raiva e humilhação...

Entretanto, há olhares que desnudam para expor em praça pública a nudez de alguém que se acha indefeso. São os olhos da indiscrição, da curiosidade ou do voyeurismo irresponsável. De fato, é comum encontrar pessoas dispostas a invadir a privacidade alheia, submetendo-a ao escárnio e ao ridículo. Desvendam sem escrúpulo aquilo que o ser humano possui de mais íntimo e sagrado. Ao fazer circular determinadas imagens ou sentimentos, provocam a timidez, a vergonha ou a revolta. Como a fumaça, os segredos jogados ao vento não têm retorno.

De outro lado, há olhares que somente desnudam para, em seguida, revestir de profundo respeito a nudez do outro. Neste caso, só o amor é capaz de defrontar-se com a nudez sem reduzi-la a um escândalo ou ao vexame. Da mesma forma que põe a nu os segredos mais ocultos, o amor os cobre de carinho e ternura, evitando a exposição à curiosidade estranha. É assim que um corpo só pode permanecer nu diante do olhar amado, pois este o reveste de uma roupa invisível, mas nobre e sublime. Abrir a privacidade de uma pessoa é o mesmo que abrir o sacrário. Nos dois casos, estamos diante do mistério que não pode banalizado.

O primeiro tipo de olhar tende a rasgar e ferir, ao passo que o segundo afaga e protege. Ambos retiram da pessoa todas as defesas, deixando-a despida e desamparada. Mas enquanto um exibe a nudez como uma espécie de troféu de sua vitória, o outro a envolve numa nova veste que a deixa segura e confiante. Ambos podem ser comparados ao bisturi do cirurgião. A diferença é que o olhar possessivo e curioso corta o tumor para escancarar sua podridão, ao contrário do olhar amoroso, que corta para curar. Um aponta o dedo em riste sobre a ferida exposta, atraindo sobre ela a atenção de todos; o outro, usa o bálsamo da compreensão e da misericórdia para saná-la.

Por aí se explica porque muitos olhares nos fazem reagir com um desvio imediato, automático, quase involuntário. Sentimos a invasão e procuramos defender a intimidade violada. No trem, no ônibus, na multidão, nas ruas... é comum os olhares se cruzarem e se desviarem logo, ao ser surpreendidos. Também com o olhar é possível violentar um segredo alheio. Daí a reação inconsciente, instantânea. Diante de um olhar que ama, porém, permanecemos firmes e sem medo, pois a nudez está protegida da mera curiosidade. O amor nos deixa transparentes, nus e frágeis como a flor ao vento, mas, ao mesmo tempo, nos recobre com uma capa de profunda compaixão.

Ilustra bem isso o episódio da mulher adúltera no Evangelho de João (Jo 8, 1-11). Três olhares estão em cena: o da própria mulher surpreendida em adultério, o dos escribas e fariseus que carregam e acusam a mulher e o de Jesus. Trata-se, no fundo, de dois olhares apenas. Certamente a mulher já terá introjetado em si mesma a opinião daquela cultura legalista e marcadamente machista. Ela mesma provavelmente se vê como impura e pecadora.

Hoje diríamos que os escribas e fariseus representam o olhar da opinião pública. Esta desnuda a mulher, expõe seu pecado à luz do dia, para julgá-la, acusá-la e apedrejá-la. A exemplo de muitos setores da mídia e das multidões enfurecidas, a opinião pública guia-se unicamente pela letra da lei. Permanece cega e surda às circunstâncias históricas e à condição da acusada. É preciso que se cumpra o que está escrito.

O olhar de Jesus repousa com doçura sobre o coração e a alma da mulher. Não julga, apenas observa e ilumina, em silêncio. Joga uma luz nova sobre as entranhas mais íntimas do ser humano. Sabe que, muito mais que pecadora, aquela mulher é vítima do contexto social. Não ignora também a possibilidade do arrependimento e da conversão. Passa por cima de todo discriminação e preconceito. Concede uma nova chance a um coração que só quer amar e ser amado. A misericórdia prevalece sobre a lei. Mais ainda, Jesus inverte a situação do tribunal público e popular. Aquela que vinha sendo julgada, condenada à marginalidade, é convidada ao centro. A ré torna-se referência para o julgamento dos pretensos juízes. Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra.

Qual não terá sido a surpresa dos escribas e fariseus, bem como da própria mulher! Eu também não te condeno; vai, e de agora em diante não tornes a pecar. O pecado não é justificado, mas o pecador tem direito a uma nova oportunidade.