terça-feira, 11 de agosto de 2009

Em busca de novos caminhos

Jornada de lutas inicia com marcha estadual do MST em São Paulo exigindo reforma agrária


Jonathan Constantino,de Campinas (SP)

Um clima estranho ronda o acampamento. Espalhados pelos espaços gramados, militantes descansam no fim de tarde. O sol se põe a oeste, sob nuvens que se concentram apenas ali.
Todos se recordam da noite de quarta (05). O Largo do Rosário, cenário histórico da cidade de Campinas, recebeu por volta de 700 pessoas entre militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e uma série de organizações e partidos políticos apoiadores da Marcha Estadual do MST que se iniciaria ali, com um ato político-cultural e, na manhã seguinte, sairia em direção a São Paulo.

A primeira noite
Iluminados pela lua cheia, os manifestantes empunhavam suas bandeiras no alto de mastros. No palco, ornamentado com bandeiras do MST e um grande pano a ostentar a ilustração feita pelo arquiteto Oscar Niemeyer, discursaram lideranças de partidos políticos, movimentos sociais, sindicatos, centrais indicais e pastorais sociais.

Após os discursos, os versos. Subiram ao palco as bandas de rap “A outra face” e “A família”. Ambas, através de rimas precisas, denunciaram as contradições presentes nas periferias urbanas, carentes de ações sociais do Estado. Periferias essas existentes nas cidades onde a marcha passará.

Ao retornarem para o alojamento naquela noite, os militantes ansiavam pelo alvorecer. Percebia-se rodas de conversa, discussões e preparativos. Ruídos, vozes e o som dos talheres a arranhar as marmitas.

O movimento defende uma importante pauta de reivindicações. A luta pelo acesso à terra, o direito de trabalhar e poder proporcionar dignidade à sua família. Enquanto as regionais se organizavam e muitos preparavam sua bolsas para o dia seguinte, um garoto dormia estirado num colchão. Sonhando(?).

A marcha
Era por volta das 8 horas da manhã de quinta-feira, quando cerca de mil e duzentos militantes, organizados em duas fileiras, deram os primeiros passos. O objetivo do dia era marchar até Vinhedo, aproximadamente 22 quilômetros. Com os pés já na rodovia Anhanguera levantavam seus mastros e suas bandeiras tremulavam ao vento.

Passos firmes. Do carro de som, um coletivo animava os marchantes com palavras de ordem e explicações sobre os objetivos da marcha. Ela caminhará até São Paulo. Pretende-se com ela propor à sociedade como um todo o diálogo sobre a Reforma Agrária e a crise econômica mundial com suas características, razões e consequências, além de debater propostas para um projeto popular para o Brasil. Os componentes das fileiras acreditam ser necessário denunciar a concentração de terras na mãos de latifundiários, enquanto milhares de pessoas passam fome no campo e nas cidades. É necessário lutar, é necessário seguir.

O sol ia se centralizando no céu, forte. O corpo se desgastava. Algumas pessoas precisavam do auxílio de um veículo para prosseguir, mas sem maiores problemas.

Alguns militantes puxavam palavras de ordem para animar os marchantes, algumas vozes já roucas de gritar. Jovens saíam das filas e entregavam panfletos explicativos sobre a marcha para os trabalhadores que executavam serviços no gramado da beira da estrada. Trabalhadores paravam para observar. Veículos que passavam na faixa de rolamento saudavam a marcha, outros protestavam em contrário.

"Na luta do povo ninguém se cansa", gritava a multidão. Persistiam. Tinham como exemplo o senhor Luis Beltrame, do assentamento Reunidas, em Promissão (SP). O poeta centenário participa de sua décima marcha ao longo dos 25 anos do MST. Ele marchou os primeiros 10 minutos e depois seguiu de carro, devido a idade.

Porém, no meio do caminho, a buzina, o corre-corre, o desespero. Assombro, lágrimas e os nervos à flor da pele. O caminhão saiu da estrada e avançou pelo acostamento e atingiu a companheira. Dor.

Neste fim de tarde, um clima estranho ronda o acampamento. Mas Maria Cícera Neves, de 58 anos, está presente. A luta continua. Já é noite.

Jonathan Constantino é colaborador Brasil de Fato

Sem terra marcham por reforma agrária em São Paulo

Manifestação reúne 1.500 militantes; acampada é atropelada por caminhão na rodovia Anhanguera e morre


Lúcia Rodriguesda Caros Amigosenviada especial a Campinas

A marcha do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em defesa da reforma agrária começou nesta quinta-feira (06). Aproximadamente 1.500 militantes partiram de Campinas, no interior do Estado, no início da manhã, rumo à capital paulista. Achegada da caminhada está prevista para o próximo dia 10.

Os manifestantes reivindicam o assentamento de 2.400 famílias que estão acampadas no Estado de São Paulo. Maria Cícera Neves, de 58 anos, é uma dessas pessoas que vivem debaixo de uma lona preta há vários anos nos inúmeros acampamentos que existem no Estado.

Perdeu a vida quando lutava por um pedaço de terra. Foi atropelada no quilometro 79 da rodovia Anhanguera, em Vinhedo, no sentido interior-capital, por um caminhão que invadiu o acostamento e a arrastou por alguns metros. A morte foi praticamente instantânea. Segundo o gerente de Operações da Autoban, concessionária que administra a rodovia, Fausto Cabral, o socorro chegou 11 minutos após o atropelamento. "Quando o resgate chegou, ela já estava morta. Houve perda de massa encefálica", conta.

Para o capitão da Polícia Rodoviária Renan de Oliveira Corte Brilho, que comandou os policiais que acompanhavam a marcha "ocorreu uma fatalidade". "Ninguém tem culpa, nem a organização da marcha, nem a polícia, nem a Autoban."

A estudante de pedagogia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) Paula Monteiro testemunhou o acidente. Ela caminhava próximo de Maria Cícera quando ouviu o som de uma buzina intermitente e viu um caminhão avançando sobre os manifestantesque caminhavam em fila pelo acostamento.

"O motorista desceu com a mão na buzina, atropelou e continuou arrastando. O pessoal batia no caminhão, para ele parar, mas ele não parava" relata a estudante.

Luto na luta
Maria Cícera é mais uma a engrossar a enorme lista dos que tombaram na luta pela terra. Sua morte, no entanto, poderia ter sido evitada se o processo de reforma agrária tivesse saído do papel no Estado de São Paulo.

"O Serra não faz nada pela reforma agrária. Ele é contra a reforma agrária", frisa o dirigente estadual do MST Renê Parrein. Renê conta que em Andradina, município onde está assentado há 10 anos, o governo do Estado já realizou vários despejos. "Ele (Serra) já despejou várias famílias que vivem em acampamentos à espera da reforma agrária". Renê afirma que no Pontal do Paranapanema, no extremo oeste do Estado, o governo do PSDB "está tentando legalizar as terras devolutas (públicas) emfavor dos fazendeiros grileiros que atuam na região".

"Querem plantar cana, mas os sem terra poderiam produzir alimentos, gerar desenvolvimento, emprego e soberania alimentar", destaca.

A atuação do governo Lula também é criticada pelo dirigente sem terra. "Dá bilhões e bilhões para o agronegócio e migalhas aos assentados." Ele também questiona o fato de o governo federal não aplicar o rito sumário (quando a terra é declaradaimprodutiva e tem de ser desapropriada) para o avanço da reforma agrária.

"Não avança, não cumpre as metas que foram traçadas", afirma ao se referir ao processo de reforma agrária implementado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

União campo-cidade
Para que a reforma agrária saia do papel, Renê considera fundamental a integração entre os sem terra e os trabalhadores urbanos. "A classe trabalhadora não tem fronteiras. Precisamos somar forças. A reforma agrária é a melhor saída para o Brasil", ressalta.

Vários sindicalistas e estudantes engrossam a marcha do MST. Para Arley Medeiros, da coordenação nacional da Intersindical, a reforma agrária não é uma bandeira só do MST. "É uma luta de todos os brasileiros."

Ele conta que 100 militantes da Intersindical, entre químicos, professores, bancários e metalúrgicos, acompanham os sem terra. "O MST é o movimento mais ativo do país. A união entre o campo e a cidade é fundamental."

Arley ressalta ainda que além da luta pela reforma agrária, a integração entre os trabalhadores do campo e da cidade é decisiva para enfrentar a crise econômica. "Nós queremos superar o capitalismo."

A coordenadora do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Carolina Filho, concorda com Arley. "O MST é o principal movimento social da América Latina." "Eles não defendem só a reforma agrária, fazemo enfrentamento ao agronegócio. O MST consegue aglutinar uma série de setores", enfatiza.

A luta continua
A estudante Susi Martinelli, 21 anos, caminhava descalça pela rodovia Anhanguera. Indagada se o calor do asfalto não a incomodava, respondeu que seus pés são calejados. Ela e a família trabalhavam em um sítio arrendado. "Tirava leite das vacas, sempre andava descalça na roça."

Susi está acampada há quatro meses no município de Gália, no centro oeste paulista. "Muita gente difama o MST, taxam a gente de vagabundos porque fazemos passeatas, mas se não fizermos isso, ninguém sabe o que estamos passando. Temos de lutar por um pedaço de terra. Tenho uma filha de dois anos e meio e quero um futuro melhor para ela", ressalta.

Além da conquista de um pedaço de chão, Susi acalenta outro sonho: quer ser médica. "Estou fazendo cursinho pré vestibular." Ela ainda não decidiu se quer se especializar em ginecologia ou obstetrícia.

A idade não foi empecilho para Marcos dos Santos Tonon, 13 anos, participar da marcha do MST. Ele vive sob uma lona com a família, no mesmo acampamento em que Susi reside. "O sonho do meu pai sempre foi ter um pedaço de terra. Antes minha mãe tinha medo, mas depois que conheceu o MST, ela gostou." O menino foi para a marcha acompanhado pelo irmão mais velho.

Marcos é um aluno dedicado, nunca repetiu, cursa a oitava série em uma escola pública, na região onde vive. Os pais estão desempregados, antes trabalhavam em um sítio cuidando do cultivo de café. "Trabalhavam na roça e eu também ajudava, quandovoltava da escola", conta.

O menino está confiante que vai conseguir conquistar um pedaço de terra para viver com a família. Hoje, eles sobrevivem com alimentos que são doados ao MST. A casa improvisada tem quarto e cozinha. O banheiro é coletivo, o sonho também.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Mês de Agosto

Vale a pena consultar o Diretório da Liturgia e da Organização da Igreja no Brasil (CNBB) de 2009. Segundo ele, eis as intenções do Apostolado da Oração para o mês de agosto.

Intenção Geral: Os deeslocados e refugiados - para que a opinião pública se ocupe mais do problema dos milhões de deslocados e refugiados, e se encontrem soluções concretas para sua situação frequentemente trágica.

Intenção Missionária: Os cristão perseguidos - para que os cristão, que em muitos países são discriminados e perseguidos por causa do Nome de Cristo, tenham reconhecidos seus direitos humanos,a igualdade e a liberdade religiosa, de modo que possam viver e professar livremente a sua fé.

Diz ainda o Diretório que o Mês de Agosto, conforme o costume da Igreja no Brasil, é dedicado à oração, reflexão e ação nas comunidades sobre o tema das vocações. Por isso lembra-se:

1ª semana: vocação para o ministério ordenado: diáconos, padres e bispos;
2ª semana: vocação para a vida em família (atenção especial aos pais);
3ª semana: vocação para a vida consagrada: religiosos(as) e consagrados(as) seculares;
4ª semana: vocação para os ministérios e serviços na comunidade.

Pe. Edvaldo Pereira, cs

Amazônia é um dos principais destinos de refugiados colombianos

Amanda Mota Repórter da Agência Brasil
Manaus

A Colômbia já ocupa a quinta posição no ranking dos países com maior número de refugiados no mundo, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Em 2008, de acordo com levantamento do Acnur, 34 mil pessoas deixaram o país em busca de melhores condições de vida. Por causa da proximidade, muitas delas escolhem o Brasil como destino. A porta de entrada no território brasileiro é a Amazônia, mais especificamente o município de Tabatinga, no extremo oeste do Amazonas, a 1,1 mil quilômetros de Manaus.

Os dados foram divulgados ontem (16), em Manaus, durante a 61ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Os quatro primeiros lugares no ranking de refugiados são, respectivamente, Afeganistão, Iraque, Somália e Sudão.

De acordo com o oficial de proteção do Alto Comissariado das Nações Unidas (Acnur), Gabriel Godoy, a América Latina tem um trânsito intenso de pessoas nas áreas de fronteira. No caso específico dos limites entre Colômbia e Brasil, pelas cidades de Letícia e Tabatinga, respectivamente, a facilidade se dá pela “normalidade” em atravessar as ruas e cruzar a fronteira entre os dois países, sem necessidade de apresentação de passaporte ou qualquer outro documento.

“As pessoas que deixam seus locais de origem o fazem por questões diversas, mas sobretudo buscando melhores condições de vida. Parte delas são migrantes, ou seja, pessoas que realizam o deslocamento espontâneo, podendo ser documentado ou irregular. Os outros são refugiados, que por medo de algum tipo de perseguição, seja por motivo religioso, guerra ou outro qualquer, sentem-se obrigadas a sair de seu país e procurar proteção em outro território”, explicou Godoy.

O levantamento do Acnur comprova que o maior efetivo de refugiados na Amazônia é proveniente da Colômbia. São pessoas se sentem ameaçadas pelas ações de guerrilheiros no país. Entre eles, estão os povos indígenas, afro-colombianos, crianças e mulheres chefes de família. Os números não são precisos porque muitos delas têm medo de pedir ajuda e preferem viver de forma clandestina nas comunidades mais isoladas da região.

A Pastoral do Migrante no Amazonas estima que pelo menos 1,2 mil migrantes, entre eles refugiados, sejam atendidos por ano na instituição. Em maio deste ano, o governo colombiano calculava que mais de 3 milhões de pessoas haviam deixado seus lares. A fragilidade na fiscalização nos rios amazônicos também facilita a entrada de estrangeiros no Brasil pelas vias fluviais - as verdadeiras “estradas” na Amazônia.

Apesar da procura pela Amazônia, o principal país procurado pelos colombianos não é o Brasil, mas sim a Venezuela. “É mais fácil para o colombiano reconstruir a vida em lugares que falam a mesma língua que eles, como a Venezuela e Equador. Esses dois países são os que recebem mais colombianos por ano e também têm mais semelhanças com a cultura da Colômbia em relação ao Brasil. Ainda assim, é inegável que a facilidade de trânsito entre Letícia e Tabatinga favorece a entrada dos refugiados no Brasil. São mais de mil quilômetros de fronteira”, acrescentou Godoy.

Para Márcia Oliveira, uma das coordenadoras do Grupo de Estudos Migratórios da Ufam, o Brasil precisa de uma política específica para refugiados. “Infelizmente, os refugiados não confiam totalmente no Acnur e na Policia Federal e por isso preferem ser clandestinos. Romper com essa invisibilidade é o grande desafio para o Brasil. Governos e sociedade ainda não se conscientizaram do drama que vivem essas pessoas”.

Ainda segundo os dados do Acnur, aproximadamente 25 milhões de pessoas se encontram em todo mundo, hoje, sob proteção da instituição. Desse total, 10,5 milhões são refugiados. O Brasil tem reconhecidos 4,3 mil refugiados.

Atingido por Barragem é assassinado em Aroeira - PB

Na noite de ontem (29/07) o trabalhador rural do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) da Paraíba, conhecido como Joãzinho, irmão de uma das líderanças do movimento, foi assassinado com tiros pelas costas. A emboscada foi montada próximo a sua residência em Pedro Velho, um dos três reaasentamentos onde estão alojadas 470 famílias atingidas pela construção da barragem de Acauã.

Militantes do MAB já vinham denunciando há algumas semanas o crescente clima de tensão na região, causado por ameaças de morte aos integrantes do movimento. Na semana anterior um rapaz que passava de moto próximo a um dos reassentamentos, em Itatuba, foi atingido com um tiro pelas costas, o que, de acordo com os dirigentes do movimento pode ter relação com as ameaças.

Atingidos por barragem lutam por terra
Após violento despejo (4/05), 120 famílias atingidas pela barragem de Acauã, montaram acampamento em terreno público, pertencente a prefeitura de Itatuba, próximo a fazenda Mascadi, onde ficaram acampadas durante dois meses aguardando vistoria do INCRA.

As famílias ficaram muito assustadas após as cenas de violência que viveram no despejo, realizado por 100 policiais militares e alguns jagunços da fazenda que aproveitaram a situação e atearam fogo em lonas e colchões dos acampados. Mesmo com a repressão, as familias se mantiveram organizadas e o acampamento a cada dia recebia mais e mais atingidos.

Há aproximadamente uma semana se iniciaram ameaças de morte a lideranças do acampamento, avisando que caso eles insistissem em permanecer no local assassinariam a eles e suas familias.
Desde então o clima de terror se alastrou na comunidade de Melancia (agrovila próxima ao acampamento) no município de Itatuba. Essa é mais uma página de uma longa de história de injustitas, vivida por essas familias atingidas.

Seis anos de injustiça e de luta
Há seis anos, 800 famílias paraibanas vivem difícil saga após a construção da barragem de Acauã. Todas viviam da agricultura, mas tiveram de deixar suas terras para a instalação da barragem. Desde então essas famílias nunca mais puderam recuperar sua antiga situação social, vivendo hoje em agrovilas, sem terra para cultivar e em pequenas casas de placa.

Foram muitas lutas travadas nesses seis anos, por indenizações justas, por reassentamento, por estruturas dignas de moradia, por escolas, posto de saúde e outros serviços sociais, como também por transporte e vias de acesso as comunidades.

Antes e depois da barragem
Antes da construção da barragem, as populações das comunidades atingidas viviam em áreas rurais, possuindo modo de vida compatível com o local de moradia e trabalho. Havia pesca de subsistência e, mesmo em condições humildes, os moradores possuíam uma vida digna, com habitações adequadas ao número de membros de cada família, acesso à água, alimentação adequada, garantida pelo trabalho que desempenhavam nas pequenas lavouras e pequenas criações, lazer, vida religiosa e social, escolas e postos de saúde, etc, além da possibilidade de negociar a produção nas comunidades vizinhas.

Depois da barragem, não foram garantidos aos atingidos os meios de vida que possuíam antes de serem desalojados de suas propriedades. Eles foram obrigados a mudar seu modo de vida: saíram de uma vida tradicionalmente rural para um meio “urbano” (sem que tenha a estrutura de uma aglomeração urbana). Não há terras agricultáveis, nem terrenos que permitam a criação de animais.

A degradação social e econômica elevou o número de casos de alcoolismo, além de aumentar os episódios de violência. As crianças não estudam, ou estudam sob péssimas condições. O esgoto corre a céu aberto. Muitos moradores não têm registro civil. Nenhum assentado possui documentação relativa à propriedade do imóvel que recebeu e em que reside. As comunidades são praticamente inacessíveis ou têm acesso muito difícil. Nenhuma é servida por transporte público regular. Nenhuma possui ambulância. Apenas alguns moradores são beneficiados por programas sociais do governo federal, sendo que os municípios não utilizam todos os benefícios previstos para serem concedidos às suas populações. As comunidades não recebem informações acerca desses programas, não sabendo como pleiteá-los. Muitos não têm acesso aos mesmos por não possuírem documentos de identidade.

A Barragem de Acauã foi concluída em 2002 e está localizada no Rio Paraíba, entre os municípios de Aroeiras, Itatuba e Natuba. Ela ocupa uma área de 1.725 hectares e causou o deslocamento de 4,5 mil pessoas (cerca de 800 famílias) que tiravam seu sustento do rio. Os povoados foram completamente inundados.

O Ministério Público Federal na Paraíba pede, por liminar, que a Justiça Federal mande o estado pagar uma remuneração mensal de um salário mínimo às famílias atingidas pela barragem, até que seja constatado que estejam construídas estruturas de produção que assegurem trabalho e renda à comunidade. Para o MPF, a remoção das comunidades desestruturou a economia das famílias, que ficaram sem uma atividade produtiva, além de terem sido encaminhadas para conjuntos habitacionais sem serviços e atividades essenciais.

Contra a criminalização dos Movimentos Sociais!

Exigimos imediata apuração e punição dos responsáveis pelo assassinato atingido Joãozinho em Pedro Velho!
Exigimos o fim das ameaças e violência em Itatuba, e punição dos agressores!
Exigimos reassentamento imediato das famílias atingidas!
Exigimos revisão das idenizações!

Movimento dos Atingidos por Barragens-PB
Comitê contra a Criminalização dos Movimentos Sociais

A escuridão para além da luz

Pe. Alfredo J. Gonçalves *
Adital

Tomando como ponto de referência a luz da razão, podemos estabelecer dois estágios no difícil caminho da espiritualidade: uma escuridão que permanece aquém da razão e uma escuridão que vai além da razão.

No primeiro estágio, temos a ignorância quanto a determinadas leis da natureza, do universo e até mesmo da sociedade e do comportamento da pessoa humana. Frente a essa carência do conhecimento, desenvolve-se um tipo de espiritualidade que prima pela magia. Pressupõe uma leitura fatalista e estática da realidade, onde o ser humano não tem qualquer poder de transformação. "Só Deus pode dar um jeito", diz com freqüência a piedade desse tipo.

Neste caso, a escuridão encontra-se aquém da razão. Isto não quer dizer que essa forma de espiritualidade não comporte uma fé profunda e autêntica. Fé que muitas vezes vem de nossos familiares, especialmente de origem rural. Buscam a Deus, sem dúvida, mas facilmente abdicam da própria liberdade de criar, inovar, recriar. Prevalece a obediência às regras e preceitos. Nos escritos de Paulo, isso aparece como subordinação à antiga lei judaica, enquanto o apóstolo insiste que "fomos libertados para viver na liberdade dos filhos de Deus".

No segundo estágio, marcado pela escuridão para além da luz, embora a razão conheça os mistérios da natureza, da história e do homem, a alma pressente que esse racionalismo calculista não explica tudo. A ciência disseca as leis que regem o universo, disseca as forças que movem a história, disseca o funcionamento dos organismos vivos, incluído o ser humano. Mas não consegue encontrar um sentido mais profundo para a existência e o funcionamento dessa gigantesca obra. Continuamos reféns do renascimento e do iluminismo, de uma ciência instrumental e pragmática.

A razão "desencanta" o mundo e a história, para usar a expressão da Max Weber. Mas seu raciocínio é transparente demais para dar conta de alguns mistérios ocultos, lógico demais para dar conta das incongruências e contradições de nosso percurso humano sobre a face da terra. Interrogações e dúvidas existenciais continuam se levantando, e a luz da razão parece mais cegar do que iluminar. O ser humano está projetado para superar-se dinâmica e continuamente. Segue inquieto por mares bravios, navegando de porto em porto, como hóspede de um mundo inóspito e provisório, a caminho da pátria definitiva. O que não o impede de buscar formas históricas sempre mais justas, fraternas e solidárias. O Reino de Deus, porém, não se reduz a nenhuma delas, chamando-nos continuamente a dar um passo à frente.

É então que a alma mergulha num campo de sombras, que se encontram além e acima da razão. Aqui predominam o abandono e a confiança em Alguém que, ocultamente, confere uma significação desconhecida à vida terrestre e a seus aparentes absurdos. Entra em cena o salto da fé sobre o escuro das interrogações profundas, sobre o abismo das dores sem remédio e sobre o futuro incerto. Imagens como deserto, silêncio, abandono e escuridão costumam representar esse mundo das trevas. Nele não há perguntas nem respostas, porque a resposta a todas as perguntas já foi dada uma vez por todas no alto da cruz. O ato de amor supremo no contexto de uma violência extremada revela a toda a misericórdia humano-divina e divino-humana.

Somente atravessando esse deserto árido e escuro, não raro solitário, é que a face oculta de Deus lança alguns raios, sempre fugazes e instantâneos, que abrem pequenas veredas no meio de um grande sertão, como diria Guimarães Rosa. A escuridão aqui, embora efêmera e fugazmente, brilha mais forte do que toda a ciência construída pelos conceitos da razão. Um pequeno raio de luz supera horas, dias e meses de trevas. Supera, nutre e orienta o caminhante do deserto. Essa trajetória espiritual ou mística, cheia de avanços e recuos, nos ensina não tanto a pedir clareza para continuar a estrada, mas a pedir forças para caminhar no escuro.

* Assessor das Pastorais Sociais.

Manifestação pacífica acaba em violenta repressão militar

Adital

Mais de um mês após o golpe de Estado em Honduras, permanece o clima de tensão no país. Ontem (30), foi registrado mais um caso de repressão violenta do governo golpista contra os movimentos sociais e organizações civis que protestavam pelo fim do golpe.
De acordo com comunicado divulgado ontem pela Missão Internacional de Solidariedade, Observação e Acompanhamento a Honduras, as manifestações aconteciam em Tegucigalpa na ocasião das atividades da greve geral do setor público, que acontece ontem (30) e hoje (31).

Segundo o comunicado, a mobilização era pacífica, mas foi fortemente repreendida pelo governo de fato: "tropas do Exército e das forças especiais da Polícia Nacional de Honduras atacaram hoje [ontem] milhares de manifestantes pacíficos com armas de fogo, com projéteis de madeira e borracha, assim como gases lacrimogêneos - laçados, inclusive, de helicópteros.", denunciou.

A violência policial deixou centenas de pessoas feridas e detidas. Uma delas, o professor Roger Abraham Vallejo Soriano, membro da Confederação de Professores de Ensino Médio de Honduras (Copemh), levou um tiro na cabeça e encontra-se em estado grave no Hospital Estado. De acordo com reportagem de Wendy Cruz, da Via Campesina de Honduras, mais de 80 pessoas estão detidas no posto policial de Tegucigalpa, entre elas Juan Barahona, dirigente da Frente Nacional de Resistência Popular.

E, ao que tudo indica, as repressões militares não se restringiram somente à capital hondurenha. Segundo informações da Via Campesina, também foram registrados atos violentos em Comayagua, San Pedro Sula e Colón. "Em Comayagua, temos informação fidedigna que temos mais de 100 detidos, entre eles dois menores de idade, um de dois anos e outros de sete anos; que se encontram quatro feridos; e muitos companheiros e companheiras tiveram que se esconder no monte e andam fugindo para que a polícia nacional não lhes pegue.", informou.

O acontecimento de ontem, ao contrário do que esperavam os golpistas, não inibiu as mobilizações populares. No mesmo dia, várias organizações e movimentos divulgaram comunicados em que rechaçam as respostas militares às manifestações pacíficas e pedem apoio da comunidade internacional para o fim do Golpe.

O grupo Feministas em Resistência, por exemplo, expressou, através de comunicado, a indignação às ações do dia anterior: "Condenamos a ilegal detenção de mais de 250 pessoas as quais foram aprisionadas pela polícia e por militares na estrada de saída de Olancho durante um protesto pacífico contra o regime golpista e quem exigem a restauração da ordem democrática no país".

Ademais, repulsou o governo golpista de Roberto Micheletti e pediu à comunidade nacional e internacional que se solidarizem com o povo hondurenho "para exigir unanimemente que se respeite a vida e os direitos de hondurenhas e hondurenhos, assim como para restabelecer os direitos constitucionais e soberanos do povo hondurenho".